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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Valerie Solanas



Esse post é quase todo retirado da Wikipédia. Trombei sem querer no verbete da Valerie e me diverti à beça. Não que ela seja comediante, ou algo assim, mas a vida dela é marcada por tantas tragédias e situações inusitadas que um certo nervosismo surge ao ler sobre sua vida. Não acho que ela seja um exemplo pra galera de hoje, mas é uma figura histórica importante, que merece ser conhecida.



Valerie Solanas nasceu em Nova Jérsey. Seu pai era um barman e sua mãe uma assistente de dentista e enfermeira. Valerie afirmava que frequentemente sofria abuso sexual nas mãos de seu pai. Quando ela tinha 11 anos os pais se divorciaram e Valerie mudou-se com a mãe para Washington. Pouco tempo depois do divórcio sua mãe se casou novamente, mas Valerie não gostava do padrasto e se rebelou contra sua mãe, tornando-se ociosa. Quando criança, ela escrevia insultos para as crianças usarem umas com as outras, pelo custo de um centavo. Na escola, ela bateu em um menino que estava incomodando uma menina mais nova, e também bateu em uma freira. Por causa de seu comportamento rebelde, a mãe mandou-a para morar com seu avô em 1949. Solanas afirmou que o avô era um alcoólatra violento que a agredia constantemente.


Quando fez 15 anos, o avô a expulsou de casa, deixando-a nas ruas. Apesar disso, ela se formou na escola e em um curso de psicologia, pela Universidade de Maryland, College Park. Enquanto esteve na universidade, ela trabalhou apresentando um programa de rádio onde dava conselhos sobre como combater os homens. Ela também foi abertamente uma lésbica, apesar do clima cultural conservador dos anos 1950. Fez quase um ano na Escola de Graduação em Psicologia da Universidade de Minnesota, onde ela publicou dois artigos e trabalhou no departamento de psicologia do laboratório de pesquisa animal, antes de sair e mudar-se para Berkeley para assistir alguns cursos, quando ela começou a escrever o SCUM Manifesto.



Na metade dos anos 1960, Valerie se sustentou como mendiga e prostituta e viajou pelo país até chegar em Greenwich Village em 1965. Nesse mesmo ano ela escreveu um artigo autobiográfico intitulado A Young Girl's Primer, or How to Attain the Leisure Class e a peça de teatroUp Your Ass, sobre uma mendiga e prostituta que odiava os homens. O artigo foi publicado na revista masculina Cavalier em 1966. Up Your Asspermanece não publicada.
Em 1967, Valerie encontrou Andy Warhol fora de seu estúdio, The Factory, e pediu-lhe para produzir sua peça. Intrigado pelo título, Warhol fica com o roteiro para revisá-lo. O roteiro da peça de Solanas nunca lhe foi devolvido. Valerie começou a fazer ligações para Warhol, exigindo-lhe a devolução do roteiro de Up Your Ass. Quando Warhol admitiu que o tinha perdido, ela começou a exigir dinheiro como compensação. Warhol não restitui Solanas, mas em vez disso lhe ofereceu um papel em uma cena de seu filme I, A Man, na qual a escritora discute com o personagem principal (interpretado por Tom Baker) na escada de um edifício. Solanas domina o diálogo, conduzindo a seu desconcertado colega por uma conversa sobre "bundas macias", "peitos masculinos" e "instinto lésbico". Finalmente abandona a cena dizendo: "Tenho que ir bater meu bife". Em seu livro Popism, Warhol escreveu que considerava Solanas uma pessoa interessante e divertida, mas que o fato dela começar a ameaçá-lo, fez com que decidisse se afastar dela.


Aqui está a cena de Valerie em I, a Man, de Andy.
Nesse mesmo ano, Valerie Solanas concluiu e autopublicou seu trabalho mais conhecido, o SCUM Manifesto, um livreto que chama à destruição dos homens e à libertação das mulheres. Alguns autores consideram o manifesto uma obra satírica e uma paródia do patriarcado, outros acreditam que ele foi concebido para ser tomado literalmente. As siglas com que é conhecida a obra não aparecem no manifesto em si, e alguns acham que o termo simplesmente faz referência à expressão "escória" (em inglês: scum). O manifesto fez com que Solanas ganhasse simpatizantes feministas, que viram em seu texto provocativo um chamado à ação e uma fonte de reflexão.
“Hoje é tecnicamente possível reproduzir sem a ajuda dos machos (e, aliás, das fêmeas) e buscar o nascimento de fêmeas, apenas. Precisamos começar a fazer isso imediatamente." 

“Consumido pela culpa, pela vergonha, por medos, por inseguranças e obtendo uma sensação física perceptível somente por sorte, o macho é, contudo, obcecado por sexo. É capaz de atravessar um rio de catarro ou de andar um quilômetro com vômito até o nariz se acreditar que no final terá uma vagina amigável à sua espera. Fará sexo com uma mulher que ele despreza, qualquer velha rabugenta e desdentada, e pagará por isso.
SCUM Manifesto seria publicado pela Olympia Press em 1968, uma editora de propriedade de Maurice Girodias. No contrato, Girodias solicitou que Solanas lhe "desse o seu próximo escrito, e outros escritos", depois que ele deu a ela $500. Ela entendeu que isso significava que Girodias iria possuir todo seu trabalho. Ela disse a Paul Morrissey que "tudo o que escrevo será dele. Ele fez isso comigo, ele me ferrou!" Solanas pretendia escrever um romance baseado no SCUM Manifesto, e acreditava que havia uma conspiração por trás de Warhol não devolver o roteiro de Up Your Ass, acreditando que ele estava coordenado com Girodias para roubar o seu trabalho e usá-lo eles mesmos. Naquela primavera, Solanas foi até o escritor Paul Krassner pedindo por dinheiro, dizendo-lhe que tinha a intenção de atirar em Girodias. Krassner lhe deu $50 e ela comprou uma pistola calibre 32 automática.

No dia 3 de Junho de 1968, às 9:00, Solanas chegou ao Hotel Chelsea, onde Girodias vivia. Ela perguntou por ele na recepção, e foi dito que ele tinha ido embora para o fim de semana. Ela permaneceu no hotel por três horas antes de visitar o escritório da Grove Press, onde perguntou por Barney Rosset, que não estava lá. Por volta do meio-dia, Solanas chegou a The Factory e esperou por Warhol na área central. Após subir ao estúdio no elevador junto com ele, ergueu uma arma e atirou em Warhol três vezes, acertando apenas uma. Depois atirou em Mario Amaya, um crítico de arte e tentou atirar também no gerente de Warhol, Fred Hughes, mas sua arma emperrou. Hughes sugeriu que entrasse no elevador, e ela entrou, deixando o prédio. Warhol teve dificuldades, mas sobreviveu, embora nunca tenha se recuperado por completo e teve que usar algo como um "espartilho" o resto da vida para prevenir que as lesões piorassem.


Naquela tarde, Solanas se entregou à polícia e foi acusada de tentativa de assassinato e posse de arma letal. Ela afirmava que Warhol tinha "muito controle sobre a vida dela" e que ele queria roubar seu trabalho. Declarou-se culpada e recebeu uma sentença de três anos num hospital psiquiátrico. Um psiquiatra a avaliou e concluiu que ela sofria de uma "reação esquizofrênica, do tipo paranoide com marcas de depressão e potencial suficiente para agir". Warhol recusou-se a testemunhar contra ela.
O ataque de Solanas teve um profundo impacto em Warhol e sua arte, assim como The Factory aumentou sua segurança. Pelo resto da vida, Warhol viveu com medo de que Solanas fosse atacá-lo novamente. Enquanto seus amigos guardavam rancor de Solanas, Warhol preferiu não mencioná-la. O evento teve muito pouca publicidade devido ao assassinato de Robert Kennedy nesse mesmo mês.

Enquanto Valerie Solanas esteve na prisão, a feminista Robin Morgan, redatora da Ms. Magazine, se manifestou para que ela fosse liberta. Ti-Grace Atkinson, presidenta nova-iorquina da Organização Nacional para as Mulheres (NOW), a descreveu como "a primeira vitoriosa defensora da libertação feminina" e "uma 'heroína' do movimento feminista". Florynce Kennedy, outra membro da NOW, representou Solanas no julgamento, chamando-a de "uma das principais porta-vozes do movimento feminista". Norman Mailer a chamou de "Robespierre do feminismo."


A professora de inglês Dana Heller argumenta que Solanas foi "muito consciente das organizações feministas e do ativismo", mas que ela "se recusou a participar do que ela muitas vezes descreveu como 'um clube de almoço de desobediência civil'". Heller afirma ainda que Solanas "rejeitou a corrente dominante do feminismo liberal por sua adesão cega a códigos 'culturais' de polidez e decoro 'feminino' que o SCUM Manifesto identifica como fonte do status social rebaixado das mulheres."


Valerie foi posta em liberdade em setembro de 1971 e presa de novo em novembro do mesmo ano por enviar cartas ameaçadoras para várias pessoas, entre as quais se encontrava novamente, Andy Warhol. Depois de sua saída da prisão, após ser culpada de ameaças e tentativa de assassinato, Valerie foi considerada como uma mártir por alguns. Em seus últimos anos passou por depressões e esteve longas temporadas em hospitais psiquiátricos. Morreu em 26 de abril de 1988, aos 52 anos, de enfisema pulmonar e pneumonia em um hotel de São Francisco. Mais de 30 anos após a perda de Up Your Ass, ela foi encontrada. Em 2000, a peça estreou em São Francisco, apenas algumas quadras de distância do hotel onde Valerie Solanas morreu.



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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fernanda Young [ou, a propósito do meu centésimo post]


Queridas amigas.
Queridos amigos.

Estou muito feliz hoje, pois este post é especial pra mim. Ele de certa forma completa um ciclo - simbólico, claro - de persistência e confiança. Esse é meu post de número 100, e estou satisfeito com a minha persistência na continuidade deste projeto, e com a confiança de vocês, que entram aqui, me lêem, comentam e trocam figurinhas comigo. Sério galera, muito obrigado.

A escolha da Fernanda como resenhada de hoje não é aleatória. Me explico. No dia 23 de novembro de 2009, no meu antigo blog Memento Mori, eu comentei o ensaio da Fernanda Young na playboy, elogiando a atitude e talz, mas criticando uma certa intelectualização - e justificação - do ato de ficar pelada. Naquele texto, disse que não havia diferença entre ela e uma mulher fruta ou ex-bbb, já que todas posam peladas ou por dinheiro ou por vaidade. Foi então que a Maíra - minha namorada na época, hoje -ex - comentou o post, me criticando. Disse que a Fernanda é superior sim a todas as ex bbb´s e mulheres frutas da vida. Pq essas minas não seriam nada sem a playboy, elas nunca teriam destaque se não tivessem mostrado a bucetinha. Já a Young não precisava disso. Ela já era uma escritora de sucesso, então fez pq quis. E daí ela me perguntava se eu achava que rolava todo dia uma mulher tirar a roupa e a galera continuar respeitando a inteligência dela. E o comentário terminava com "sabe nada de mulé!".

Ok. Eu confesso. Sou um sujeitinho bem mesquinho, e muito rancoroso. Na época não liguei muito pro comentário, mas com o tempo aquilo foi crescendo. Minha dúvida, em algum tempo, ganhou forma de certeza: "deus, eu não manjo nada de mulher!". E pior. Passei a me ver como um daqueles caras que posam de libertários e tal, mas na real são uns preconceituosos da porra. Foi aí que nasceu a necessidade de criar esse blog.

Meu primeiro post foi o da Carla Camurati, no dia 11 de maio de 2011. Foram 94 perfis individuais, 4 perfis de coletivos e 1 só de fotos (da Hilda Hilst). Talvez hoje eu ainda continue não sabendo muita coisa sobre as mulheres, mas eu sei que aprendi um bocado. E meu interesse tá ativo, então acho que esse é o caminho certo.

Enfim, vou falar sobre a Fernanda, ok?


Fernanda Maria Young de Carvalho Machado, nascida em Niterói, em 1970. Sofria de depressão na infância, tentou até cortar os pulsos. Largou a escola ao completar o fundamental - o médio foi feito num supletivo de seis meses. Cursou letras, depois jornalismo, depois rádio e comunicação, mas não concluiu nenhum desses cursos. Aos 19 anos fez uma participação como atriz numa minissérie da globo chamada Iaiá Garcia, baseado no Machado de Assis.


Aos 21 participou também como atriz da novela O Dono do Mundo, da globo. Daí ela parou com atuação e foi escrever com o marido, o roteirista Alexandre Machado. Em 1995 integravam o time de roteiristas de A Comédia da Vida Privada. E em 96 Fernanda publicou seu primeiro romance, Vergonha dos Pés. O segundo veio no ano seguinte, A Sombra Das Vossas Asas, e no ano seguinte, Cartas Para Alguém bem Perto. E em 2000, A Pessoa dos Livros. Neste ano também escreveu, com o marido, o roteiro do filme Bossa Nova, e teve, com o marido, suas primeiras filhas, as gêmeas Cecília e Estela.


As pessoas precisam passar por crises, por um processo depressivo para ter um upgrade. Minha última crise depressiva veio em parte desse contato com a maternidade, e não só o pós-parto. Acho estranho gente que não sente o conflito do pós-parto, é um raio que cai na sua cabeça. Vem uma consciência de perigos e morte muito grande. Período de culpa e medo. Drama hormonal devastador. Ser mãe trouxe uma necessidade de conectar vários valores, comprometimento com o carma de criar alguém. Na verdade, a maternidade é a coisa mais importante para mim. O resto pode doer aqui ou ali, mas a vida é bela através dos filhos. Tenho as gêmeas, que vão fazer 10 anos, a Catarina, 1 ano e três (quatro) meses e o John, 7 (8) meses. Fui mãe tardiamente, com 30 anos. Nunca foi um projeto, nem pensei que fosse acontecer. Talvez a Catarina, porque sempre soube que iria adotar.


De 2001 a 2003, escreveram o seriado mais engraçado de todos os tempos, Os Normais. Talvez seja seu trabalho de maior sucesso, até hoje. Lançou ainda o livro O Efeito Urano, em 2001.


Então em 2002 foi convidada pra apresentar o Saia Justa na GNT, junto com Rita Lee, Mônica Waldvogel e Marisa Orth, parceria que duraria até o ano seguinte. Em 2006 ela ganha um programa de entrevistas próprio, o Irritando Fernanda Young, que dura até 2010, data em que já havia lançado mais 5 livros.


Se eu sou uma autora de língua portuguesa, indiferentemente se você gosta ou não dos livros, execrar, depois de tantos anos e de tantas obras, é um exercício total de falta de autoestima. É assim que a gente perde o sentido de indagação e referências de língua. Se você viajar o Brasil inteiro para as palestras e leituras como as que eu faço, vai perceber que o Brasil é enorme e que fica meia dúzia de picuinhentos rancorosos azucrinando. Os leitores não; eles são incríveis. São pessoas que leram um livro meu aos 15 anos e agora têm 27, escrevem, se tornaram grandes leitores, muito inteligentes e livres.

Em 2007 Fernanda sofreu um aborto, e logo adotou um garoto, John, seu segundo filho adotivo. Hoje ela ainda trabalha em programas no GNT, em seriados da globo e escrevendo. Com 41 anos, um tantão de tatuagens, uma persona nervosa (mas no fundo é uma tímida-carinhosa) e muita atitude e talento, Fernanda Young continua honrando o rolê, mostrando pras gatinhas que é melhor ser respeitada primeiro pela inteligência, pra depois ser respeitada pela bucetinha, peitinhos e afins.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Marjane Satrapi


Pra quem leu persépolis – ou mesmo viu o filme – falar sobre a infância e adolescência desta quadrinista e ilustradora é um tanto desnecessário. Pra quem não leu, ou não viu, digo somente uma coisa: não perca tempo, meu! É um negócio incrível, lindo. Vou falar um pouquinho só sobre ela, e colocar um trecho de sua entrevista e um tanto de seu trabalho, ok? Assim, pra quem achar bonito e se interessar, é só dar um pulo na livraria ou na locadora. Fechado?


Marjane Satrapi nasceu em Rasht, no Irã, em 1969, e atualmente vive em Paris. Estudou no liceu francês de Teerã, onde passou a infância. Bisneta de um imperador do país, teve uma educação que combinou a tradição da cultura persa com valores ocidentais e de esquerda.


Aos 14 partiu para o exílio na Áustria, e depois retornou ao Irã a fim de estudar belas-artes. Tornou-se mestre em comunicação visual pela universidade de Teerã. Logo em seguida mudou-se para a França, trabalhando como ilustradora e autora de livros infantis. Em 2000 lançou o primeiro volume de sua hq autobiográfica, Persépolis - que teve ao todo quatro volumes. Em 2007 co-dirigiu uma adaptação de sua obra, com Vincent Paronnaud. O filme foi selecionado para o festival de Cannes.  

Marjane e Vincent
 "No primeiro livro eu tinha a vantagem de fazer algo bonito, porque eu sou apenas uma garota pequena, e não sou eu quem toma todas as decisões, não sou eu quem faz qualquer coisa. Assim, o mundo em volta de mim mudou, eu sou testemunha dessa grande mudança em torno de mim. A guerra começa, e depois de um tempo torna-se completamente normal, a situação da guerra. A sensação de que estou evocando no segundo livro é mais um problema de quando você está indo para uma nova cultura e realmente quer se adaptar, e você com certeza quer ser integrado. Você tem que esquecer a sua própria cultura em primeiro lugar. Você sabe, porque a cultura assume todo o espaço dentro de você. Se você quer que outra cultura entre em você, é preciso se livrar da primeira, e depois escolher o que deseja das duas e engoli-las novamente. 

Mas há o momento em que você olha para tudo e vê esta falta de identidade. Você não sabe mais quem você é. Que deseja muito estar integrado, mas, ao mesmo tempo você tem uma coisa toda que está dentro de você. É o problema que acontece quando se sai e volta, você se torna um estrangeiro em qualquer lugar. Eu sou uma estrangeira no Irã. Eu não vou correr o risco de voltar para o meu país mais, mas ao mesmo tempo, é um bom sentimento não pertencer a nenhum lugar mais, ao mesmo tempo, é um sentimento difícil. Então, se eu escrevi um livro e disse que eu estava preocupado com a situação no Irã o tempo todo, isso seria muito falso. Qualquer um dos que se mudaram do Irã - e havia muitos de nós que fizeram isso sem os pais - todos nós temos passado por este desejo de fazer parte de uma nova sociedade. E o engraçado é que todos os amigos iranianos que tenho agora, que deixaram o país sozinho aos 12, 13, 14 anos, tornaram-se extremamente iranianos depois de todos esses anos.

Porque quando se é jovem, misturar o fanatismo do governo do Irã com a cultura do seu país acaba sendo natural. Quando se é muito jovem, é tão difícil passar o tempo todo justificando-se por causa de sua nacionalidade. Uma pergunta simples que para todos tem uma resposta de uma palavra é " De Onde você é?" - "Eu sou francês." Para um iraniano, é uma explicação de uma hora: "Eu sou iraniano, mas, eu sou iraniana, mas ... "

Quando se é jovem é odiável responder a essa pergunta. Bem, hoje eu só dizer "eu sou iraniana", e eles dizem "Você é iraniano?" E eu digo "Sim, é um fato, eu sou iraniana. Eu nasci lá, eu tenho o cabelo preto. Sim, eu sou uma pessoa iraniana, o que posso fazer? "Desde que escrevi o livro, ninguém pode me dizer" Dá-me uma explicação. "Acho que agora a minha explicação é apenas" Leia o livro e você vai ver. "Este livro me permitiu não falar muito mais. 

Eu posso viver 50 anos na França e meu carinho será sempre com o Irã. Eu sempre digo que se eu fosse um homem eu poderia dizer que o Irã é a minha mãe e a França é minha esposa. Minha mãe, se ela é louca ou não, eu morreria por ela, não importa o que ela seja, é minha mãe. Ela está em mim e eu sou ela. Minha esposa eu posso enganar com outra mulher, eu posso deixá-la, eu também posso amá-la e fazer seus filhos, eu posso fazer tudo isso, mas não é como com minha mãe. Mas em nenhum lugar é a minha casa mais. Eu nunca terei qualquer outra casa.

Você vê, o problema básico de um país como o meu, além do regime, além do governo, é a cultura patriarcal que está levando o meu país. Que é o pior. É por isso que o governo ainda está lá. Tudo o que toca, dá a sua interpretação da coisa. Quando toca a psicologia que diz que a mulher é mais sensível que o homem. Quando toca a medicina diz que nosso cérebro é um pouco de peso inferior ao do homem. Quando toca qualquer coisa que dá sua própria interpretação, e a interpretação vai para a política, à religião, para tudo. Então essa é a situação. 

Você sabe, as feministas ficam muito bravas quando eu digo que não sou uma feminista. Eu sou uma humanista. Eu acredito em seres humanos. Depois do que tenho visto no mundo, eu não acho que as mulheres são melhores do que os homens. Veja o que os soldados mulheres fizeram no Iraque, que não era melhor do que os homens. Margaret Thatcher era uma mulher, olha o que ela fez à Grã-Bretanha. Ou Madeleine Albright? Assim, as mulheres não são melhores do que os homens"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Rosely Sayão


 Pra quem nasceu nos anos 80 e viveu a adolescência nos 90 sabe o quanto Rosely Sayão foi uma figura incontornável. Sempre presente na tv, falando sobre sexo para os adolescentes, Rosely era apresentada como sexóloga, e era ouvida atentamente por uma molecada que ainda não dispunha de internet pra sanar suas infinitas dúvidas sobre os próprios corpos e os corpos dos outros.

Nascida em São Paulo, em 1950, foi morar com a família em Piracicaba. Estudou toda a vida em colégio público, repetindo o primeiro ano do ensino médio - dado que ela se orgulha de ostentar. Não suportando mais a vida familiar, e sem interesse em casar cedo, resolveu ir cursar psicologia na Puc aqui de Campinas. Se formou e foi dar aula pro ensino fundamental e médio. Casou e teve dois filhos. Permaneceu 12 anos na academia, daí resolveu parar com tudo.


Se divorciou no inícios dos 80, dedicando-se aos filhos, ao trabalho na clínica e em educação. Em 1989 inicia sua escrita pública no imortal jornal paulistano Notícias Populares. Tratava-se de uma coluna sobre sexo intitulada "Tudo Sobre Sexo". Em 93 passou a escrever uma coluna de sexo no caderno Folhateen, da Folha de S. Paulo, e foi aí que sua presença passou a figurar em programas de entrevistas na tv, como o Programa Livre do Serginho Groisman.


Já lançou vários livros sobre sexo e educação de filhos, e atualmente escreve para o caderno Equilíbrio, da Folha. É colunista do Band News FM e do Momento Família do Uol News.


Pra quem quiser conhecer suas colunas, recomendo forte. São reflexões interessantes sobre educação e vida no mundo contemporâne. O blog dela: http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Hilda Hilst

Desde que eu criei esse blog, quero escrever sobre a Hilda. Mas eu sempre adio. Não sei o motivo. Desculpem-me, mas eu ainda não vou falar sobre ela. Vejam os vídeos, leiam alguns de seus escritos. Num dia em que eu me sentir mais preparado, talvez enfim escreva.






I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


II
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura. 
Crueldade.


III


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.


(Do Desejo, 1992)




 Espírito natalino é um saco preto, hordas de delinqüentes, turbas de atoleimados te exigindo caras, posturas, o riso alvar, cestas, granas e tu mesmo basicamente arruinado, e criancelhas peidando adoidadas, escoiceando os ares, e mãezinhas num azáfama de um cair de tarde bordelesco, pra lá pra cá, e Jeshua entregue às traças, imagine o arrepio do Divino vendo o trotoar dos humanos, enchendo as panças, arrotando grosso, chupando os dentes, enchendo as latrinas, as mandíbulas sempre triturando, e o nenen lá na manjedoura, entre a vaca e o jumento... Que pai é esse que manda o filho pra um planeta de bosta como é a Terra... Se fosse um bom pai, o filho teria encarnado num corvo, a gente só ficaria olhando lá pro corvo nas alturas e dizendo: olha lá o divino, olha que lindo! E o divino com asas, só de nos ver de longe se escafederia, tem dó, pai, aquela gente não, por favor, pai, Abracadabra, pai, me transforma em fumaça, em rojão, em poeira, mas me afasta daqui, me afasta!
(Casos & Carícias e Outras Crônicas)









segunda-feira, 13 de junho de 2011

Eva Furnari



Provavelmente vocês que me lêem certamente se divertiram à beça com os livros da Bruxinha na época da escola. Me recordo que na terceira série, quando fazíamos a visita semanal à biblioteca, os livros da Bruxinha, da Eva Furnari, eram de longe os mais concorridos.



Nascida em Roma, na Itália, Eva Furnari veio com a família para o Brasil quando tinha 2 anos. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo na USP e dos 26 aos 31 anos foi professora de artes no museu Lasar Segall. Aos 28 anos começou a se dedicar a ilustração, ganhando em 1987 o prêmio abril de ilustração. Em 1996 começou a escrever suas próprias histórias, e hoje soma mais de 60 livros lançados. Ah, e ganhou o prêmio Jabuti 6 vezes!



Trabalhou durante quatro anos na Folha de S. Paulo, e foi lá, na folhateen, que criou sua personagem mais célebre: a bruxinha. Coloquei a seguir um vídeo dela falando sobre seu processo criativo. Vale a pena.



Eu sou um grande entusiasta de literatura infantil. E quem gosta desse tipo de livro sabe que o que mais se encontra por aí são livros simplórios e estereotipados, que não tem o mínimo respeito pela inteligência da criança. O que encontramos na obra de Eva Furnari é uma literatura que diverte e instiga a criatividade. A ausência de palavras transforma o leitor em co-autor, e há um cuidado visível tanto com o conteúdo quanto com a forma da história.

Um sucesso mais que merecido para esta autora que sabe mesclar tão bem arte, afeto e prazer.

http://www.bibliotecaevafurnari.com.br/index2.php

terça-feira, 24 de maio de 2011

Elvira Vigna



Na fase mais infernal da minha interminável depressão, no início desse ano, estava eu no trabalho, escolhendo algum livro recém lançado pra ler. Daí topei com um livrinho pequeno, 168 páginas, falava sobre um adultério e era escrito por uma carioca nascida em 47. Resolvi experimentar, e o resultado foi se pá o melhor livro que eu li em 2011 [talvez eu tenha lido em 2010, mas isso é irrelevante].

Era um texto tão íntimo, tão dolorido e forte, de uma crueza por vezes constrangedora, mas era sobretudo uma história fascinante, irresistível. Logo nas primeiras páginas eu já sofria junto com a personagem-narradora, que vive o inferno depois da traição do marido. É realmente impressionante.



Bem, só pra não passar batido, vamos lá: Elvira Vigna é escritora e critica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação. Ela tem outros 6 romances escritos, que eu ainda não li, ou seja, preciso urgentemente tomar vergonha na cara e ir atrás deles. Outro trabalho interessante que desenvolve é o de ilustradora:
Ilustração de 'Arabescos ao vento', de Roseana Murray - 2009


Ilustração de 'Contos de encantos', de Rogério Andrade Barbosa - 2005


Ilustração de 'Língua Nua', de Oswaldo Martins - 2011


As críticas de arte podem ser encontradas no site Aguarrás (http://aguarras.com.br/).


Além de romances pra adultos, a autora também escreveu uma porção de livros infantis, quase todos fora de catálogo. Mas é possível ler esses livros em seu site: http://vigna.com.br/

sábado, 21 de maio de 2011

Kika Salvi



Conheci a Kika quando eu era um adolescente ultra inexperiente na vida e resolvi comprar a revista VIP pra aprender o que era ser um homem. No meio de uma porção de matérias sobre músculos e roupas, haviam umas crônicas que logo me chamaram a atenção. No meio do Fábio Hernandez e Ailin Aleixo, lá estava ela, abordando questões de relacionamento que foram tão marcantes pra mim quanto meus próprios relacionamentos (ok, isso é exagero). E tinha também a coluna que sexo, que encontrei ontem folheando minhas antigas revistas na casa dos meus pais.


Pois é, daí o tempo passou, eu cresci, a Kika cresceu, e o que eu descobri? Ela está pintando quadros. E quadros muito interessantes. Pra mim foi uma baita duma agradável surpresa, senti até um certo orgulho, porque afinal o trabalho com a tinta me parece tão interessante quanto o trabalho de escritora. E, até onde pude averiguar, tem dois livros lançados: Kika - a estranha, e Mulher a Moda Antiga. Mas pra quem tiver afim de ler algo dela, é só botar no google e vai chover crônicas.

Deixo a seguir, algumas de suas obras.
Tem muito mais no http://kikasalviart.blogspot.com/

Le fou en rouge - aquarela e giz crayon - março de 2008.


Amantes Latinos - painel: colagem de tecidos, acrílica e pastel seco s/ tela 150 X 160 cm. Abril de 2009.


Menina Surfando, acrílica s/ papel de algodão 30 X 40 cm 


Serena, acrílica e carvão, de 80 X 110cm


Francesinha, acrílica s/ tela 30 X 40cm 2008.