Hoje eu entendo que as coisas não são bem assim, mas durante muito tempo pensei que a retomada do cinema brasileiro tivesse acontecido só por causa da Carla Camurati e o seu fantástico Carlota Joaquina – Princesa do Brazil. Mesmo sabendo que o filme não surgiu simplesmente do nada, Camurati ainda é considerada – e não somente por mim – como a cineasta que criou o filme responsável pela nova onda do cinema nacional.
Sua primeira relação com as artes começa na escola de freiras onde estudou, numa montagem de O Auto da Compadecida. Começou a cursar biologia da faculdade mas largou pra fazer teatro, o que não rolou, já que não passou no vestibular por causa de matemática. Mesmo assim, começa a trabalhar como atriz, mesmo não tendo nenhum tipo de formação.
Sua relação com o cinema começou em 1981, com o drama erótico O Olho Mágico do Amor, filme de estréia dos parceiros José Antonio Garcia e Ícaro Martins, situada na Boca do Lixo – famosa rua do Triunfo em São Paulo, onde se agregavam produtores, distribuidores e exibidores. Carla Camurati torna-se então musa da dupla, com quem realiza uma trilogia composta ainda pelos filmes `Onda Nova` e `Estrela Nua`. Na época, com 21 anos, ela ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no festival de Gramado. Com esse precoce êxito nas mãos, foi fazer novelas na globo, sem contudo abandonar o cinema. Em 1987 escreve, dirige e estrela seu primeiro curta metragem, A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal, ganhando prêmios em Brasília e no Rio. Infelizmente eu não consigo achar esse curta em lugar nenhum. Em 1988 interpreta a escritora e jornalista Patrícia Galvão, a Pagu, no primeiro filme dirigido por Norma Benguell, Eternamente Pagu. Por este trabalho, recebe o prêmio de melhor atriz em Gramado.
Os trabalhos no cinema e na televisão continuam sem grandes surpresas, até que em 1992, época em que o Collor havia acabado com empresa estatal de cinema, ela inicia os preparativos para Carlota Joaquina – Princesa do Brazil, que seria filmado no final de 93 e início de 94, todo feito com grana de publicidade de empresas, e lançado em 95. Quando estreou, Carlota fez um sucesso danado com seu humor ácido e produção caprichada, atraindo um milhão e meio de espectadores numa época que ninguém parecia disposto a ir ao cinema ver filme brasileiro.
“A premiação de Carlota foi o público. Não faço filmes para festivais. Nunca caço festival, tanto que nem me inscrevo neles. [...] O Brasil é um país ótimo pra mim, não tenho reclamações. Aliás, não tenho a menor vontade de trabalhar no cinema americano, não tenho o menor desejo de ganhar um Oscar, do fundo do meu coração. Meu ego não se satisfaz por aí. Na verdade, sou mais ambiciosa, preciso de mais. Oscar pra mim é fila na porta do cinema, e de público brasileiro. Os meus filmes são fruto do meu país e do apoio cultural dado aqui.”
Após esse estrondoso sucesso, Carla Camurati se dedica a montagem de uma ópera, La Serva Padrona, de Giovanni Battista Pergolesi, em 1997. Gosta tanto da experiência que decide realizar o primeiro filme-ópera do Brasil no ano seguinte, com título homônimo. Abraçando de vez a ópera, monta em 1999 Madame Butterfly de Puccini, em 2001, Carmen de Bizet, em 2003 O Barbeiro de Sevilha de Rossini e em 2007 Rita de Donizetti. Em 2001 lança Copacabana, uma beleza de filme com o Marco Nanini, que trata de envelhecimento e amizade.





