quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Niki de Saint Phalle


[agradecimentos fundamentais para este post: Thereza Pires e Lívia Tiede]


No início dos anos 50 do século passado, quando começou a fazer sucesso na Europa, Niki de Saint Phalle parecia ser um pseudônimo. Mas a escultora, pintora, arquiteta amadora, modelo fotográfico, atriz, teatróloga, cenógrafa, estilista e designer, além de francesa legítima, carregava um sobrenome nobre.



Niki de Saint Phalle - Catherine Marie-Agnès Fal de Saint Phalle - nasceu em Neuilly-sur-Seine, cercanias de Paris, em 29 de outubro de 1930, segunda dos cinco filhos de Jeanne Jacqueline Harper e André Marie Fal de Saint Phalle. 

O pai era um dos proprietários do banco da família. Com o colapso da bolsa em 1929, perdeu a sua fortuna e o negócio. O grande crash da Bolsa de Nova York obrigou a família a emigrar para os Estados Unidos. Niki viveu até os três anos com os avós maternos. Aos 11, infelizmente, foi atingida por uma tragédia somente mais tarde revelada: o abuso sexual, pelo pai, que a estuprou dos 11 aos 18 anos.

Leitora sôfrega, seu interesse era voltado para Edgar Allan Poe, Shakespeare e os filósofos gregos. Atuava em peças escolares e escreveu sua primeira obra, "A peste". 

Aos 18 anos, fugiu com o namorado Harry Matthews - a mãe obrigou que houvesse uma cerimônia formal num cartório de Nova York. O novo casal mudou-se para Cambridge, Massachusetts. Harry estudava música na Universidade de Harvard e Niki produzia seus guaches e desenhos.



Belíssima, iniciou carreira de modelo e suas fotos apareceram na Vogue, no Harper's Bazar e na capa da revista Life. 
A 23 de abri de 1951, nasce a filha Laura e, no ano seguinte, a família passou a morar em Paris. Harry desejava ser maestro e Niki matriculou-se num curso de teatro. Todo tempo disponível é dedicado a viagens.



Em 1953, no meio de uma profunda depressão, internada em Nice e tratada com terapia da pintura, abandona os projetos teatrais e decide se tornar artista plástica. O casal Matthews regressa a Paris, onde divide uma casa com Anthony Bonner, músico e compositor de jazz americano. Nesse momento, Niki é apresentada ao pintor americano Hugh Weiss, que será uma das figuras mais importantes de sua trajetória.



Neste mesmo ano, acontece a mudança para a Ilha de Maiorca. Em 1955, nasce o filho Philip e Niki visita Barcelona. Esta viagem para estudar a obra de Gaudi, fez mudar mais uma vez o rumo de sua vida e carreira, plantando a semente do que seria no futuro, o Jardim do Tarot.


A família nômade muda-se para em Lans-en-Vercors, nos Alpes franceses, onde, em 1956, acontece a primeira exposição das obras de Niki, na pequena cidade de Saint Gallen. Ela começa a se aprofundar no estudo das obras de Paul Klee, Henry Matisse, Pablo Picasso e Douanier Rousseau.



Ao conhecer e aprofundar um relacionamento com o artista plástico suíço Jean Tinguely, Niki separa-se de Harry. Mas, a obra continua a crescer: surgem as assemblages e os quadros-alvo. Cria ex-votos e, em seguida, as Nanás (gíria francesa para "garotas") - mulheres gigantescas feitas com papier marché e poliéster.



Hoje, estão por toda parte: do teto da estação ferroviária de Zurique à Paris, Nova York, Bruxelas, Tóquio, Amsterdã, Los Angeles, Hannover, Genebra, Lucerna e até mesmo na mansão paulistana de um ex-banqueiro.



Em 1961, Niki de Saint Phalle vira celebridade com os "tiros" - performances durante as quais os espectadores atiram com carabinas e balas de plástico colorido em pranchas que servem como alvos.



Torna-se a única mulher a fazer parte do grupo dos novos realistas (com Arman, César, Christo, Gérard Deschamps, François Dufrêne, Raymond Raysse, Mimmo Rotella, Daniel Spoerri, Jean Tinguely e Jacques Villeglé) fazendo, segundo a crítica especializada da época, o papel de intermediária entre os movimentos avant garde americano e francês.



Na estréia oficial dos Novos Realistas, na noite de 13 de julho, acontece um evento na abadia de Roseland (no qual participam todos os Novos Realistas) encerrado com Niki fazendo uma sessão de tiros sobre uma replica da "Vênus de Milo".



Ao voltar aos Estados Unidos, em busca de ares secos, para aliviar os pulmões devastados pelas emanações de produtos químicos usados para compor seus trabalhos em poliéster, morre em maio de 2002, na Califórnia.

domingo, 7 de agosto de 2011

Maitena Burundarena



Maitena nasceu em Buenos Aires, em maio de 1962, numa família de classe média, onde o pai era engenheiro e a mãe arquiteta. Estimulada pela mãe, aprendeu a desenhar de forma autodidata, publicando seus primeiros trabalhos em revistas de humor. É difícil encontrar exemplos dessa primeira fase, que tinha uma tônica mais erótica, mas que foi publicada tanto na Argentina quanto na Europa.



Enquanto desenhava as tiras nos anos 80, trabalhava também com ilustração gráfica para revistas, jornais e livros escolares. Já fez roteiros para a televisão, foi proprietária de um restaurante, e dona de um bar.



Teve seu primeiro filho aos 17 anos, e casou-se logo em seguida. Aos 19 teve o segundo filho, e aos 24 estava divorciada pela primeira vez. Hoje, Maitena está no quarto casamento, e tem três filhos no total. Interessante notar que talvez o grande trunfo de sua série, Mulheres Alteradas, é esse conhecimento que só aqueles que viveram intensamente os modismos e mudanças nos padrões de comportamento podem ter. Maitena desenha e escreve sobre mulheres modernas com a propriedade de quem já viu e viveu tudo aquilo, com a máxima intensidade.



E eu, como homem e fã absoluto, acho sempre uma revelação ler suas tiras. É bacana isso. Sempre que eu leio o Mulheres Alteradas, eu sinto que entendo e aprendo um pouco mais sobre as mulheres, sobre o misterioso universo feminino. Me sinto mais próximo, como se uma camada da barreira que nos separa estivesse ruindo.



"Tive um relacionamento com outra mulher por três anos. Moramos juntas, com meus filhos, e passado o escândalo inicial, foi a mesma coisa que estar me relacionando com um homem. Quer dizer, as mulheres te ligam muito mais vezes por dia! E eu odeio falar por telefone. Sei que tenho um público gay, e isso me encanta, porque, em geral, os gays escolhem o melhor! E não me surpreende que se divirtam com meu trabalho, porque nossos interesses se parecem muito: os homens! Mas, seriamente, parece que os gays se sentem mais próximos ao que tem de crítico no meu trabalho, sobre o machismo, as imposições culturais, os papéis familiares tradicionais"


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alison Bechdel



Começo dizendo somente isso: leiam Fun Home.

Repetindo, leiam Fun Home.

Alison é uma roteirista e desenhista de quadrinhos nascida nos Estados Unidos em 1960. Sua obra máxima é essa que eu citei logo acima, o Fun Home, uma história autobiográfica que dentre outras coisas, aborda sua relação fria com o pai professor de literatura, homossexual não assumido que preferia passar seu tempo reformando o casarão vitoriano onde moravam do que dando atenção à família.



Filha de um casal católico de professores, que também eram proprietários de uma funerária, completou o colegial em 1981, quando se mudou pra Nova Iorque para estudar arte. Em 1983 teve seu primeiro trabalho publicado em um jornal voltado para mulheres, chamado Womannews. Em um ano suas tirinhas começaram a aparecer em outras publicações.



Foi assim até que em 2006 lançou seu primeiro álbum, Fun Home, eleito o livro do ano pela revista Time, e vencedor do prêmio Eisner. Seu texto é denso, fortemente literário, com momentos poéticos únicos e raros. O traço fino é estiloso, elegante, e o trabalho de cores é primoroso.



Enfim, não há muito a dizer sobre a vida dela.
O que importa aqui é o trabalho dessa mulher.

http://dykestowatchoutfor.com/

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lisette Model



Aproveitando que hoje eu postei umas fotos da Diane Arbus, vou falar um pouco de outra fotógrafa importantíssima do século XX, Lissette Model, nascida na Áustria em 1906. Quando criança, era estuprada pelo pai, um médico do exército, que morreu quando ela tinha 18 anos. Foi então que começou a estudar música, com o compositor Arnold Schoenberg.

Aos 20 mudou-se para Paris, onde continuou estudando canto e piano. Uns anos mais tarde, na década de trinta, se casou com um pintor russo, e foi então que a fotografia entrou na sua vida. Em 1938 se mudaram para Nova Iorque, onde suas fotografias publicadas na Cue Magazine fizeram um baita sucesso. Posteriormente, trabalhou para a Saturday Evening Post, Vogue, Cosmopolitan e outras revistas.

Pra quem vê seu trabalho, fica claro que Arbus deve muito de seu trabalho a Model. Não, evidentemente, que se trate de cópia ou algo do tipo. Os estilos são diferentes, isso um olhar mais atento não deixa dúvidas. A alegria e efervescência da Metrópole são palpáveis, estão em cada foto. Os clubes noturnos, cheio de tipos estranhos, a movimentação da cidade, sua solidão.

Morreu em 1983.
























Dercy Gonçalves



A juventude da Dercy Gonçalves é uma dessas histórias típicas de trama de novela. Nascida numa família pobre do interior do Rio, viu ainda criança a mãe ir embora depois de descobrir a infidelidade do marido. Era chamada de negrinha, pois era neta de negros, e sofreu muito com o pai alcoólatra.Trabalhou na bilheteria do cinema e também em peças apresentadas aos hóspedes de um hotel. Até que, aos 17, fugiu com uma companhia de teatro. Legal, né?



Estreou nos palcos aos 22 anos, na compahia Maria Castro, logo em seguida fazendo teatro itinerante, apresentando-se em cidades de interior. Uma vida certamente sonhada por muitas meninas, a de viajar e trabalhar com arte. Isso numa época em que moça de família ficava longe de teatro. Mulher no teatro era sinônimo de puta.



Com esse aprendizado totalmente autodidata, especializou-se na comédia e no improviso, integrando o Teatro de Revista - que era essencialmente popular - no seu auge. Nos anos 60 iniciou sua carreira solo, fazendo apresentações tipo stand up. Em 63 era a atriz mais bem paga da tv Excelsior, e no final dessa década comandou um programa de auditório de muito sucesso chamado Dercy Verdade. Trabalhou em vários filmes, principalmente nas chanchadas da Atlântica. Tem em torno de 24 filmes no currículo.




Quando já estava chegando aos 80 anos, tomou um balão de um empresário inescrupuloso e teve que voltar à ativa, em programas de auditório do Silvio Santos e mesmo em pontas em novelas da globo e do sbt.



Acho que a minha geração conhece apenas essa fase final da Dercy, aquela velha de aparecia na tv pra falar palavrão. Mas essa mulher era dura na queda. Sofreu o diabo na vida, mas sempre esteve ligada ao mundo do espetáculo, até sua morte em 2008, aos 101 anos.

"Todas as manhãs, a solidão me deixa deprimida. Moro sozinha, tem três pessoas que se revezam para me acompanhar. Minha filha não mora comigo. Filho não gosta de mãe; é a mãe que gosta do filho. Eles crescem, ganham independência e passam a ter prioridades. Eu me animo no cair da tarde, às 16h mais ou menos. Luto para ter forças para sair. Aí me arrumo, vou pro bingo. Lá, sou muito bem tratada, ganho cartelas e me distraio. À noite, vou a festas, jantares, adoro comer. E volto pra casa, durmo feliz. Assim são meus dias, sem expectativa"