domingo, 2 de dezembro de 2012

Hilda Hilst



Noutras palavras, a sua poética, de certo modo, sempre foi a do desejo?
Daquele suposto desejo que um dia eu vi e senti em algum lugar. Eu vi Deus em algum lugar. É isso que eu quero dizer.
E a importância de Deus diminui também agora?
Não preciso mais falar nada, entende? Quando a gente já conheceu isso, não precisa mais falar, não dá mais pra falar.
É, portanto, um esgotamento da linguagem, um impasse, digamos, "expressivo", que leva ao silêncio?
É verdade. Leva ao silêncio. Eu fui atingida na minha possibilidade de falar. Lá do alto me mandam não falar. Por isso é que estou assim.
Sua obra, no fundo, então, procura...
Deus.
Ele não significava o Outro, o outro ser humano?
Deus é Deus. O tempo inteiro você vai ver isso no meu trabalho. Eu nem falo "minha obra" porque acho pedante. Prefiro falar "meu trabalho". O tempo todo você vai encontrar isso no meu trabalho.
[cadernos de literatura brasileira, outubro de 1999]



Hilda de Almeida Prado Hilst foi a única filha do fazendeiro de café, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst, filho de Eduardo Hilst, imigrante originário da Alsácia-Lorena, e de Maria do Carmo Ferraz de Almeida Prado. Sua mãe, Bedecilda Vaz Cardoso, era filha de imigrantes portugueses. Nasceu em Jaú, em 1930, às 23:45, numa casa da Rua Saldanha Marinho.

 Bedecida e Apolônio

Em 1933, aos 3 anos 

Fantasiada para o carnaval de 1937.

Aos 8 anos.

Hilda com a mãe.

Aos 12 anos.

Aos 13, com seu cão número 1.

Em 1932, seus pais se separaram. Em plena Revolução Constitucionalista, Bedecilda mudou-se para Santos, com Hilda e Ruy Vaz Cardoso, filho do seu primeiro casamento. Durante a viagem, ao passarem por Campinas, a Estação Ferroviária Mogiana está sendo bombardeada. Em 1934 recebe a primeira visita do pai em Santos, e em 1935 Apolônio é diagnosticado como paranóico esquizofrênico.

Hilda e Maria Lygia Bruno, no Sta Marcelina, 1941.

Em 1937, Hilda ingressou como aluna interna do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, onde cursou o primário e o ginasial, com desempenho considerado brilhante. Nesse ano, a mãe lhe revelou a doença de seu pai. Neste ano a mãe lhe revela a doença de Apolônio. A intensidade dessa revelação e os poucos encontros que terá com o pai acentuam sua imagística da figura paterna, que se configura um dos principais componentes de sua obra literária. 

Em 1946

Em 1944, ao concluir o ginasial, passa a morar na residência de Ana Ivanovna, situada à Rua Alemanha, Jardim Europa, São Paulo. Em 1945, iniciou o curso secundário no Instituto Presbiteriano Mackenzie, onde permaneceu até a conclusão do curso. Em 1946 tem seu segundo encontro com o pai, quando o visita na fazendo Olhos D´água, no município de Itapuí. 

Na casa da mãe, em Campinas, 1948.

Em 1948, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), onde conheceu aquela que seria sua grande amiga ao longo da vida, a escritora Lygia Fagundes Telles. Seu primeiro livro Presságio, publicado em 1950, foi recebido com grande entusiasmo pelos poetas Jorge de Lima e Cecília Meireles.
Hilda de boina, com os colegas do Mackenzie, 1945. 

Hilda de preto, com as amigas, 1948. 



Na faculdade de Direito, 1950. 

Com Cássio Rodrigues, em 1955.

A partir de 1951, ano em que publicou seu segundo livro de poesia, Balada de Alzira, foi nomeada curadora do pai. Concluiu o curso de Direito em 1952. No ano seguinte começa a trabalhar no Escritório de Advocacia do Dr. Abelardo de Souza, em São Paulo, mas demite-se em 1954, abandonando a carreira por absoluta incompatibilidade com a profissão, optando pela Literatura. Viaja à Argentina e Chile, com a amiga Théa Müller Carioba. Muda-se para o apartamento da mãe, no Parque Dom Pedro II, São Paulo. Em 1955 publica o livro de poesia Balada do Festival. 

Hilda e Cássio Rodrigues na Grécia, 1957. 

Roma, 1957. 

Rumo a Paris, 1957.

Em 1957 faz uma viagem à Europa, com as amigas Regina Morganti, Marina de Vincenzi e Dorotéa Merenholz, permanecendo seis meses em Paris. Ainda na França, conhece Nice e Biarritz. Vai para Itália (Roma) e Grécia (Atenas e Creta). Voltando ao Brasil, muda-se para apartamento na Alameda Santos, São Paulo. Publica em 1959 um novo livro de poesia, Roteiro do silêncio. No ano seguinte, outro livro de poesia: Trovas de Muito amor Para um Amado Senhor. Viaja para New York e Paris. Muda-se para casa no bairro de Sumaré, São Paulo. 

Em Biarritz, 1957. 

Com as amigas, em Cannes.

É nessa época que Adoniran Barbosa leu o segundo livro de Hilda Hilst e ficou encantado com "Bem o Quisera", que ele considerava um dos versos mais perfeitos já escritos na língua portuguesa. Em meados dos anos 50, Adoniran liga para a escritora e sugere um encontro - pois ele planejava musicar alguns poemas dela e queria tratar do assunto pessoalmente. A conversa entre os dois, bastante descontraída, ocorre no bar do Hotel Jaraguá, localizado na capital paulista. Como Hilda tinha dúvidas se seus versos dariam boas canções, Adoniran pediu que ela criasse, naquele exato momento, alguns poemas. Na mesa do bar, Hilda escreve "Só Tenho a Ti", "Quando Te Achei" e "Quando Tu Passas por Mim". Foi sua introdução no universo musical. A seguir, duas delas (infelizmente não na voz de Adoniran)



Aos 27.

Em 1961, novo livro de poesia, Ode fragmentária. O músico Gilberto Mendes compõe a peça Trova I, inspirada no primeiro poema de Trovas de Muito Amor Para um Amado Senhor.

Apresentando a entrega do prêmio Saci, em São Paulo. 

 "Honni soit qui mal y pense!", ou seja, "maldito seja quem pensar em sacanagem", Paris, 1962. Ao fim da refeição, nesse restaurante de Paris, o garçon, ajudado por cavalheiros altruístas, coloca uma liga na perna de Hilda Hilst.

No batizado de Beatriz Cardoso, 1960.

Em 1962 recebe o Prêmio Pen Clube de São Paulo, com a publicação de Sete cantos do poeta para o anjo. Conhece o físico nuclear Mário Schemberg no Clube dos Artistas (ou Clubinho), localizado à Rua 7 de Abril, freqüentado por intelectuais e artistas. O poeta português Carlos Maria de Araújo, seu amigo pessoal, presenteia Hilda com o livro Lettres a El Greco, de Nikos Kazantizakis. O livro se transforma num divisor de águas na vida da escritora, sendo um dos principais motivadores de sua futura mudança de São Paulo.


[Pra quebrar um pouquinho o gelo, alguns poemas lidos no rádio por Hilda, em início dos anos 1990]

Em 1963 conhece o escultor Dante Casarini. Sobre o encontro, Dande diz:
"...quando conheci a Hilda, estava em férias em São Paulo, e justamente estava caminhando na Rua Augusta numa certa tarde, quando ela, que estava com a Marilda Pedroso, mulher do Bráulio Pedroso, me viu da vitrine de uma loja de calçados e me fez um sinal. Achei incrível, porque o sinal era bem insinuante e me aproximei – ela era lindíssima, aliás, a Marilda também. Ela então me convidou para jantar em sua casa. Conversamos um pouco e ela pediu meu endereço. A noite estacionou o maior Mercedes em casa, com o choffeur dela para me buscar, e foi aquele jantar maravilhoso e aí começou aquela paixão entre nós.... 
Eu fui, e foi um jantar maravilhoso, a luz de velas, a casa da Hilda era belíssima: Rua Petrópolis, 42, no Sumaré (aliás, mais tarde ela venderia a casa à atriz e produtora teatral Ruth Escobar que entrevistei várias vezes além de ter trabalhado em peças da sua companhia e que providencialmente conheci) com muitos empregados – Hilda sempre teve muitos empregados e objetos maravilhosos, porque ela tinha um gosto estupendo e tomamos vinhos incríveis e então, começou uma paixão maravilhosa entre nós. Ela me convidou para ficar e eu fiquei. Nunca mais voltei daquelas férias. 
Eu tive poucas mulheres, sempre muito interessantes, mas nunca conhecera uma pessoa tão especial, genial, inteligentíssima e fascinante como a Hilda. E vivemos um período de grandes porres – saiamos com a Marilda e o Bráulio Pedroso, e outros artistas, poetas, como a Gilka Machado, atores como o Raul Cortez, Cacilda Becker, Tarcisio Meira, Eva Vilma. Nossa relação foi uma coisa inenarrável, porque a paixão era mútua. Em resumo, comecei a ter uma vida intensa e diferente de tudo o que até então vivera.”


Os dois tinham várias afinidades, entre elas o amor pelos cães. Em 1965, em companhia de Dante, muda-se para a sede da Fazenda São José, de propriedade de sua mãe, em Campinas, SP. Iniciam  a construção de uma casa, que seria a casa do sol. Foi erguida em 8 meses, e na época não havia luz elétrica, então se usavam 60 lampiões a querosene (a luz elétrica só viria 3 anos depois). Em 1968 os dois se casam.

Hilda, Dante e sua mãe, no dia do casamento.

Na Casa do Sol, 1967. 

O escultor Dante Casarini e Hilda Hilst sob a figueira da Casa do Sol (ou "no mato com cachorro"),1966. Atrás da árvore, a mesa de pedra cujo tampo Jô Soares quebrou ao usá-la como banco.

24 de setembro de 1966. Morte do pai. Na época Hilda já se transferira para a Casa do Sol, onde viveu por toda a vida. A casa será freqüentada por artistas e intelectuais das várias áreas, transformando-se num centro de fomento cultural das décadas de 70 e 80. Em 67 começa a escrever suas peças teatrais. Continua publicando poesia.



Hilda com Rofran e Felipe — respectivamente diretor e ator na peça "O Verdugo", 1973. 



Hilda, duas pessoas não identificadas, o crítico Leo Gilson Ribeiro e o escritor J. L. Mora Fuentes, na Casa do Sol, 1976.

No ano de 68 escreve as peças O visitante, Auto da barca de Camiri, O novo Sistema, e inicia As aves da Noite. Conhece os escritores Caio Fernando Abreu, que passa a morar na Casa do Sol, e Jose Luís Mora Fuentes. Na praia de Massaguaçu, próximo a Caraguatatuba no litoral paulista, inicia a construção da uma casa, que chama de “Casa da Lua” que concluirá no ano seguinte, na qual passará algumas temporadas. As peças O visitante e O rato no muro são encenadas no Teatro Anchieta, São Paulo, para exame dos alunos da Escola de Arte Dramática (EAD-USP).

O editor Massao Ohno e Hilda Hilst, durante lançamento. 

 Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst e a artista plástica Olga Bilenky, na Casa do Sol.


 Aniversário de Dante Casarini: na mesa - da esq. para direita - Caio Fernando Abreu, Mora Fuentes, Hilda Hilst, não identificado, Dante Casarini e amigos, na Casa do Sol.

 O escritor e artista plástico J. Toledo, Hilda e Gutenberg, na Casa do Sol.

Hilda, Ana Lúcia Vasconcelos, a artista plástica Olga Bilenky e amigos irracionais. 


Em 1970 publica seu primeiro livro de ficção Fluxo-Floema. Os críticos literários Leo Gilson Ribeiro, Anatol Rosenfeld e Nelly Novaes Coelho são os primeiros a reconhecer a importância dessa prosa inovadora. 
Lança seu segundo livro de ficção, Qadós. A leitura de Telefone Para o Além, livro do pesquisador sueco Friederich Jurgenson, leva-a à singular experimentação que estenderá pelos próximos 7 anos, na qual, por meio de um gravador, registra vozes de origem inexplicável pela ciência. Comunica a pesquisa aos físicos César Lattes e Newton Bernardes, seus amigos. Escuta deste último: “Isso, sendo verdade, teríamos que sentar na calçada e repensar toda a física”. Sobre esse caso, vale muito a pena assistir a esse raríssimo vídeo, uma matéria feita pelo Fantástico, disponibilizado no youtube:


Em 1985 divorcia-se de Dante Casarini, que continuará morando na Casa do Sol até 1991, e com o qual mantém profunda amizade até a morte de Hilda. Continua publicando poesia, e em 1990 lança os dois primeiros títulos da sua trilogia erótica, O Caderno Rosa de Lori Lamby, que a princípio escandaliza a maior parte da crítica, e Contos d’escárnio/Textos grotescos, igualmente perturbador para boa parte de seus leitores. Em 1991 lança Cartas de um Sedutor, encerrando sua trilogia erótica. Apesar de a trilogia representar menos de um décimo da sua obra, Hilda passa a ser erroneamente considerada, por parte da crítica, como escritora essencialmente erótica. 

A entrevista a seguir é de uma lucidez suprema. A melhor que encontrei dela.



Em 1992 aceita o convite de Wilson Marini, editor no “Caderno C” do jornal Correio Popular (Campinas, SP), e inicia sua atuação como cronista. Ela escrevia o que pensava, e os leitores mandavam cartas medonhas ao jornal, ligavam exigindo que a coluna de Hilst fosse cortada do jornal. Posteriormente estas crônicas seriam reunidas na publicação Cascos e Carícias.


Em 1995 parte de seu arquivo pessoal foi comprado pelo Centro de Documentação Alexandre EulálioInstituto de Estudos de linguagem - IEL, UNICAMP, estando aberto a pesquisadores do mundo inteiro e o restante, notadamente sua biblioteca particular, encontra-se na Casa do Sol, sede do Instituto Hilda Hilst.


Em 1997, ao receber uma cópia do primeiro disco do compositor maranhense Zeca Baleiro, enviada pelo próprio artista, Hilst ligou, propôs uma parceria e mandou um disquete com sua obra poética. Foi no disquete que Baleiro descobriu o livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão - escrito pela Hilda quando estava apaixonada platonicamente pelo Júlio de Mesquita Neto (vide as iniciais) - e decidiu musicar os versos do capítulo que dá título ao disco. Depois de dois anos de trabalho, a gravadora de Zeca Baleiro, Saravá Disco, lançou o CD Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio - com poemas de Hilda Hilst musicados pelo artista maranhense.




Muitos de seus livros se esgotaram devido a uma escassa distribuição. Porém, em 2001, a Editora Globo adquiriu os direitos de sua obra e, em dezembro daquele mesmo ano, passou a reeditar a Obra Completa da escritora.

Internada no Hospital das Clínicas da Unicamp no dia 1 de janeiro de 2004 devido a uma queda e conseqüente fratura de fêmur, Hilda Hilst vem a falecer no dia 4 de fevereiro, às 4 horas da madrugada, em decorrência de uma infecção generalizada. É sepultada na tarde desse mesmo dia, no Cemitério das Aléias, em Campinas. Após seu falecimento, o amigo Mora Fuentes liderou a criação do Instituto Hilda Hilst. O IHH tem como primeira missão a manutenção da Casa do Sol, seu acervo e o espírito de ser um porto seguro para a criação intelectual.


Atualmente o Instituto Hilda Hilst tem como presidente Daniel Fuentes, e está levando a cabo o projeto de construção de um Teatro na Casa do Sol. Pra quem quiser saber mais, é só entrar no site. 

Aqui um vídeo do programa Entrelinhas, sobre Hilda.

Há um documentário sendo produzido, e um longa de ficção sendo escrito sobre a vida da escritora. E também uma biografia a ser lançada pela editora Globo. Pra quem quiser saber mais sobre a Hilda, há um delicioso texto da escritora Ana Lúcia Vasconcelos, que conviveu com Hilst e está preparando um livro sobre ela. Está dividido em 3 parte. Aqui a primeira, aqui a segunda, e a terceira

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mulheres da Via Campesina, Rio Grande do Sul

Juro que eu não sabia dessa fita que rolou em 2006. Copiei este texto deste site, que não tem autor identificado. Pra quem não conhece o ocorrido, é fundamental conhecer, nem que seja só pra sacar que feminista não precisa se NEO. O fundamental é lutar contra a opressão. De todo o tipo.
E pra quem quer saber mais, vale a pena ler isso aqui, e também esse aqui, e esse outro aqui.
Na madrugada do dia 8 de março de 2006, 1.800 mulheres da Via Campesina realizaram uma das maiores ações contra o monocultivo de eucalipto no Rio Grande do Sul.
Organizadas, as mulheres ocuparam o viveiro hortoflorestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, município que fica a cerca de duas horas de Porto Alegre. Na ação, elas destruíram estufas e bandejas de mudas de eucalipto.
A repercussão do protesto ampliou o debate sobre a monocultura de eucalipto e chamou a atenção da sociedade sobre os malefícios sociais, ambientais e econômicos desse tipo de cultura.
Em 2006, ocorria em Porto Alegre o encontro internacional da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), para discutir a Reforma Agrária e o desenvolvimento rural.
As mulheres decidiram que era o momento de tornar visível para os países que participavam da conferência as consequências do plantio em grande escala de eucalipto. “As mulheres decidiram tornar público o que estava acontecendo com a terra, com os camponeses e com a saúde para o conjunto da sociedade. Decidiram que a Aracruz simbolizava essa denúncia e por isso a ocuparam e destruíram as sementes e as mudas do viveiro como uma forma de chamar a atenção da sociedade para o que representa esse modelo de cultivo”, afirma Ivanete Tonin, militante do MST.
O eucalipto precisa de muita água para o seu desenvolvimento. Originário de regiões úmidas da Austrália, a planta precisa em média de 30 litros de água por dia ao longo de suas fases de crescimento.
No Brasil, embora tenha muitos rios, não existem vastas regiões úmidas, portanto, o plantio em larga escala de eucalipto pode provocar desequilíbrios nas águas existentes na região de plantio. Como consequência disso, vai faltar água para plantas, consumo humano e animal.
Como suas raízes são muito profundas, o eucalipto seca várzeas, poços artesianos e vertentes, trazendo o ressecamento da terra de superfície na região e altera o regime de chuvas. A falta de umidade torna mais difícil a entrada de frentes frias e ocorrem mais estiagens, como as registradas na região sul do Rio Grande do Sul, onde se planta muito eucalipto.

Na época, a Aracruz Celulose era uma das maiores produtoras de pasta de celulose do mundo. Em 2006, no Rio Grande do Sul, a multinacional possuía 300 mil hectares de terra para plantar eucalipto, planta da qual se extrai a celulose. A intenção da empresa na época era chegar em 2015 com 1 milhão de hectares de terra plantadas no estado. Mais de 95% da celulose é para exportação.
O produto serve para a produção de papel higiênico, papel toalha, lenço, papel absorvente e demais produtos descartáveis, de acordo com o Com informações do informativo “O latifúndio dos eucaliptos: Informações básicas sobre as monoculturas de árvores e as indústrias de papel”, da Via Campesina do Rio Grande do Sul.
Essa situação, simbolizada pela Aracruz, fez com que as mulheres decidissem pelo ato. “Essa ação visava denunciar o conjunto desse padrão de produção que transforma os países pobres apenas em colônia. Nós ficamos apenas com o prejuízo”, relata Ivanete.
O ato durante a semana do encontro da FAO teve a intenção de alertar para as ações do governo federal. “O governo veio à Porto Alegre fazer propaganda de que o Brasil estava acabando com a fome. Mas na verdade, esse governo representa os interesses do capital no campo. É um governo que não faz Reforma Agrária e defende o agronegócio”, afirma Ana Hanauer, da direção estadual do MST.

Protagonismo na luta de classe
Além de denunciar o êxodo rural provocado pela expansão das áreas de plantio da monocultura do eucalipto, a expulsão de pequenos agricultores de áreas próximas em função da escassez de água e também as péssimas condições dos trabalhadores que são contratados sem direitos trabalhistas pelas empresas do setor, a ação teve forte repercussão dentro dos movimentos sociais, da esquerda em geral e na sociedade.
“O 8 de março de 2006 representou a afirmação e a construção de um feminismo proletário contra o capital. Porque até o momento, o feminismo era muito vinculado à classe média, às demandas que são importantes para as mulheres, mas até então não tínhamos uma ação mais concreta de enfrentamento com o capital,” explica Claudia Teixeira, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).
A ação na Aracruz deu maior visibilidade às lutas das mulheres da Via Campesina. Até então, eram realizadas atividades na linha de afirmar a presença das mulheres nos diferentes setores na perspectiva dos direitos.
Em 2006, as mulheres se tornam protagonistas do ponto de vista da luta contra o capital. “Chegamos no momento de dizer que neste modelo de sociedade, nem homens nem mulheres tem vida. Também teve uma repercussão grande nos movimentos, pois as mulheres assumiram todas as instâncias da preparação do ato. Isso representou um empoderamento interno muito importante”, avalia Sarai Brixner, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).
A manifestação também representou a primeira ação mais forte de mulheres do MPA. “Significou, então, um marco histórico para nós enquanto movimento social de luta das mulheres. Além disso, a ação revelou toda uma discussão sobre monocultura, transgenia e contaminação do meio ambiente com a produção de pasta de celulose,” afirma Rosieli Lüdtke, do MPA.
Na Via Campesina, as mulheres entravam em um período de ascensão, no qual participavam mais intensamente dos debates e das questões de gênero. “Essa ação nos projetou enquanto referência política de luta de classe. Nós temos que responder a altura e isso ultrapassa as pautas dos movimentos”, explica Ana Hanauer, do MST.
A ação representou uma reafirmação de uma luta maior contra o capital e revelou, conforme Ivanete Tonin, a ideia de que não há libertação das mulheres sem a destruição do capital. “A libertação das mulheres não se dá somente dentro de casa, ou nas relações, mas sim na construção de um outro modelo de sociedade. A opressão das mulheres também está fundada na sociedade capitalista,” afirma Ivanete.
O protagonismo das mulheres na ação também é destacado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). De acordo com Patrícia Prezotto, as mulheres começam a pautar a luta de classe. “Foi um momento histórico para as mulheres. Elas começam a não aceitar o que o capital impõe. Essa ação na Aracruz demonstra que as mulheres têm condições de fazer a luta contra o capital,” salienta Patrícia.
A identificação do capital como o grande inimigo da classe trabalhadora também foi um dos acúmulos da luta. “2006 traz para nós a discussão da celulose e da monocultura, pois até então a sociedade não percebia o mal que representa para a humanidade esse tipo de cultura,” relembra Izanete Maria Colla, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).
Além disso, a construção da luta na Aracruz representou uma unidade mais forte entre as mulheres. “As mulheres se identificaram, pois a ação bateu forte na questão do monocultivo, na questão ambiental e na questão do capital. Isso fortaleceu muito os movimentos que participaram da luta”, diz Elci da Paz, do MMC.
Outro aspecto é que a luta do 8 de março de 2006 questionou a opção de parte da esquerda de apostar no processo eleitoral para fazer mudanças estruturais na sociedade em favor dos trabalhadores. “Aquela ação mostrou que as mulheres pobres que se movimentavam ali não se sentiam incluídas neste poder, na medida em que denunciavam que o governo Lula liberou os transgênicos e flexibilizou as leis ambientais. Então é uma ação que também chocou por questionar essa via de fazer a luta”, explica Ivanete.

Reação da sociedade
As mulheres avaliam que em um primeiro momento, a reação imediata da população foi de criticar e condenar a ação, principalmente pela influência da mídia buguesa, mas depois que o assunto começou a ser debatido, muitas pessoas passaram a ver a ocupação da Aracruz com outros olhos e a apoiar a luta contra a monocultura do eucalipto.
“Uma parcela importante da sociedade entendeu que as mulheres destruíram aquilo que viria a destruir a terra, secar os rios e causas uma série de problemas, inclusive para a saúde”, avalia Neiva Vivian, do MST.
Entretanto, devido à abordagem da mídia que tratou a ação como um crime e defendeu a empresa, ignorando os impactos da monocultura para a população e o meio ambiente, alguns setores da sociedade ainda não compreenderam a importância da destruição do viveiro da Aracruz. “Nós não somos contra a tecnologia, nós somos contra uma tecnologia quando está apenas em função do lucro,” relata Ivanete.
A ação na Aracruz está no contexto da condição de barbárie que as mulheres vivem na sociedade capitalista patriarcal. “Nós mulheres não temos nada a perder. E esse gesto de radicalidade é compreensível a partir do momento em que as mulheres dizem que só o socialismo que resolve o problema das mulheres. Não é possível remediar em nenhum aspecto. Não tem reforma, não tem ação governamental que amenize a condição de opressão da mulher na sociedade em que a gente vive”, sintetiza Ana.
E de bônus, um vídeo sobre elas.