segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Lou Andreas-Salomé


Lou Salomé nasceu em São Petersburgo, 1861. Salomé era a única filha mulher de cinco irmãos. Buscando uma boa educação, aos 17 persuade o pastor holandês Hendrik Gillot, 25 anos mais velho que ela, para lhe ensinar a teologia,  filosofia, as religiões do mundo e literatura francesa e alemã. Gillot tornou-se tão apaixonado por Salomé que planejava se divorciar de sua esposa e se casar com ela. Salomé e sua mãe fugiram para Zurique, para que ela pudesse adquirir uma formação universitária. A viagem também foi  benéfica para a saúde física de Salomé, que andava tossindo sangue.


A mãe de Lou a levou para Roma quando ela tinha 21 anos. Em um salão literário na cidade, Salomé conheceu Paul Rée, um autor e um jogador compulsivo, com quem ela propôs viver em uma comuna acadêmica. Após dois meses, os dois se tornaram parceiros. Em 13 de Maio de 1882, Friedrich Nietzsche juntou-se ao duo. Salomé escreveu em 1894 um estudo sobre a personalidade de Nietzsche e a filosofia. Os três viajaram com a mãe de Salomé, através da Itália e considerada onde eles iriam criar a sua "Winterplan" comuna.
"Pois, no seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério"


Chegando em Leipzig, Alemanha, em outubro, Salomé e Rée romperam com Nietzsche depois de um desentendimento entre Nietzsche e Salomé, em que ela acreditava que o bigodudo era perdidamente apaixonado por ela. Talvez Lou tenha sido a única mulher que Nietzsche amou verdadeiramente. Em 1884 tornou-se próxima de Helene von Druskowitz, a segunda mulher a receber um doutorado em filosofia em Zurique.

Andreas-Salomé, Rée e Nietzsche (1882)

Salomé e Rée se mudaram para Berlim e viveram juntos até alguns anos antes de seu casamento com o estudioso de línguas Friedrich Carl Andreas. Apesar de sua oposição ao casamento e suas relações abertas com os outros homens, Salomé e Andreas ficaram casados de 1887 até a morte dele, em 1930. Ao longo de sua vida de casada trocou correspondências com o jornalista alemão Georg Lebedour, o poeta alemão Rainer Maria Rilke, em que ela escreveu um livro de memórias analítica, os psicanalistas Sigmund Freud e Viktor Tausk, entre outros. Seu relacionamento com Rilke foi particularmente estreito. Essa relação foi decisiva para a criação de obras fundamentais, como "A Humanidade da Mulher" e "Reflexões Sobre o Problema do Amor".

"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!"


Lou Andreas-Salomé e seu marido Friedrich Carl Andreas (1886)

Com a idade de 74 anos, Lou Andreas-Salomé deixou de trabalhar como psicanalista. Ela havia desenvolvido problemas de coração, e em sua condição enfraquecida tinha de ser tratada muitas vezes no hospital. Seu marido a visitava diariamente, era uma situação difícil para o velho, que era muito doente. Depois de um casamento de quarenta anos marcados pela doença em ambos os lados e longos períodos de mútua não-comunicação, os dois ficaram mais próximos. Sigmund Freud reconheceu isso de longe, escrevendo: ". Isso só prova a permanência da verdade [da relação]" Friedrich Carl Andreas morreu de câncer em 1930. Lou Andreas-Salomé teve que passar por uma operação relacionada com o câncer em 1935. Na noite de 05 de fevereiro de 1937 ela morreu de insuficiência renal durante o sono.



"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida,. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito (...) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."“A morte desfaz, assim, a distância entre os amantes, que agora vivem um no outro, sem que o individualismo os separe. A morte não é uma partida, mas uma volta: um retorno do indivíduo àquela união primitiva com as coisas. Por isso não a devemos temer”.





sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ellen DeGeneres


Ellen Lee DeGeneres nasceu e foi criada em Metairie, Louisiana, filha de uma terapeuta da fala, e de um agente de seguros. Ela foi criada dentro da doutrina da Ciência Cristã até a idade de 13 anos. Em 1973, os pais de DeGeneres pediram a separação e se divorciaram no ano seguinte. Pouco depois mudou-se com a mãe para Gruessendorf da área de Nova Orleans para Atlanta, Texas. 



DeGeneres se formou no ensino médio em maio de 1976, onde então se mudou de volta para Nova Orleans para estudar na Universidade de Nova Orleans, onde se formou em estudos de comunicação. Depois de um semestre, ela deixou a escola para fazer trabalho de escritório em um escritório de advocacia com sua prima Laura Gillen. Também foi vendedora de roupas, garçonete, pintora de casa, hostess e bartender.


Ellen começou a se apresentar stand-up comedy em pequenos clubes e casas de café. Em 1981, ela foi a mestre de cerimônias no Clube de Comédia Clyde em Nova Orleans. DeGeneres cita Woody Allen e Steve Martin como suas principais influências no momento. No início de 1980, ela começou a turnê nacional, sendo nomeado  pela Showtime a pessoa mais engraçada dos Estados Unidos em 1982. Em 1986, ela apareceu pela primeira vez em The Tonight Show, apresentado por Johnny Carson, que comparou-a a Bob Newhart. Quando Carson convidou-a para uma conversa na tela depois de sua performance, ela se tornou a primeira atriz de comédia na história do programa a ser tratado desta forma.  




Seu material cômico tornou-se a base do bem-sucedido seriado Ellen 1994-1998, chamado Estes Meus Amigos durante sua primeira temporada. O programa foi popular em suas primeiras temporadas, devido em grande parte ao humor observacional de Ellen, que foi chamada de Seinfeld feminino"


Ellen atingiu o auge de sua popularidade em fevereiro de 1997, quando anunciou publicamente sua homossexualidade no The Oprah Winfrey Show. Posteriormente sua personagem no seriado saiu do armário para seu terapeuta, interpretado por Oprah Winfrey, revelando que ela é gay. O episódio de debutantes, intitulado "O filhote de cachorro", foi um dos mais alta avaliado episódios da série. Os últimos episódios da série tiveram baixa audiência, e o show foi cancelado em 98. DeGeneres voltou ao circuito de stand-up comedy, e em 2001 voltou à telinha com o programa The Ellen Show.


Em setembro de 2003 ela lançou o talk show diurno The Ellen DeGeneres, um enorme sucesso que dura até hoje. Em 2009 foi convidada pra apresentar o American Idol. A experiência foi tão boa pra ela que fechou contrato pra mais 5 temporadas.




quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Glória Maria



Nascida em 1949, em Inhambupe, Bahia, Glória é filha de pai alfaiate e mãe dona de casa. A família se mudou para o Rio, e os pais se separaram, deixando Glória com a avó, que foi quem a criou. Na adolescência, enquanto trabalhava numa companhia telefônica estatal, começou um estágio não remunerado no nascente jornalismo da Globo. Depois de um ano ela foi contratada. Formou-se em Jornalismo pela Puc Rio, e passou pelas apresentações do RJTV, do Jornal Hoje, do Jornal Nacional e de outros programas até chegar à apresentação do Fantástico – o qual apresentou de 1998 a 2007, quando pediu uma licença de dois anos.


Glória tornou-se conhecida pelas reportagens especiais e viagens a lugares exóticos – como uma que fez no deserto do Saara ou quando percorreu o caminho de Cristo desde Israel até o Egito, dentre outras. Glória cobriu também a Guerra das Malvinas, em 1982. Por ter viajado para mais de cento e vinte países ao longo da carreira, Glória tem mais de dez passaportes preenchidos. Ela também já entrevistou várias pessoas famosas; dentre essas estão Freddie Mercury, Madonna e Michael Jackson.


Em janeiro de 2010, Glória se reuniu com os diretores de jornalismo da Rede Globo e ficou decidido que ela seria repórter especial do Globo Repórter, programa do qual ela fez parte por pouco tempo em vista do pedido de afastamento.



A seguir, a entrevista de Glória para Nina Lemos, da revista Tpm.


Como você virou jornalista?
Eu não pensava em ser jornalista. Nem tinha como sonhar com isso e naquela época nem existia direito essa profissão. Eu era muito boa em redação na escola. E, uma vez, uma amiga que trabalhava na Globo me disse que tinha uma vaga para estágio lá. Fui e fiquei. Ao mesmo tempo, comecei a trabalhar como telefonista na empresa que era a estatal de telefone na época. Não dava para trabalhar sem ganhar nada! Aquilo era um luxo que eu nem podia pensar em me dar. E o estágio não era remunerado. Por um ano, trabalhei nos dois empregos, inclusive nos fins de semana. A minha vida era assim: eu chegava na Globo às oito da manhã e saía às oito da noite. Ia para meu cursinho pré-vestibular, depois para casa e dormia uma hora. Acordava para passar a madrugada na companhia telefônica. Passei um ano assim. Até que a Globo me contratou.

Você imaginava que um dia ficaria famosa? 
O próprio jornalismo de televisão estava começando. Não tinha essa coisa glamorosa que as pessoas imaginam e eu não pensava em aparecer na TV. Não existia isso. Quando comecei, os repórteres apuravam, mas não apareciam. Eu estava feliz por poder viver de escrever. E tinha outra. O Jornal Nacional era apresentado pelo Cid Moreira e pelo Sérgio Chapelin. Pronto. Aquilo era uma instituição. O grande sonho na época era ser repórter do Jornal Nacional.

Você acha que os jornalistas que entram hoje na TV sonham com o quê? 
Acho que o sonho de ser repórter não existe mais. A reportagem passou a ser só um caminho para você atingir seu verdadeiro sonho, que é apresentar um programa e virar uma celebridade.

Mas você tinha o sonho de ser uma celebridade? 
Claro que não! Não existia isso! Ninguém ficava famoso no jornalismo. Só o Cid e o Sérgio. Não existia cultura de celebridades na época. Como é que você pode sonhar com uma coisa que nem existe? E depois, quando virei repórter que aparecia no Jornal Nacional, eu ía de bicicleta para o trabalho e depois para a praia com uma turma incrível. Eu, Cazuza, a Isabel do vôlei. Ninguém me achava nada de mais porque eu era jornalista, imagina.


Você era quase adolescente na época. Como era isso? 
Tudo se misturava. Eu tinha 16 anos e os câmeras que trabalhavam comigo tinham 18, por aí. Somos muito amigos até hoje. Saíamos para dançar toda noite. Não tínhamos um centavo no bolso, mas éramos caras de pau e descolados. Isso foi me dando uma outra visão do mundo. Era ao mesmo tempo meu trabalho e a minha turma. Eu, claro, achava tudo isso absolutamente divertido.

Você é workaholic?

Nunca fui. O jornalismo para mim é uma paixão. Nunca senti aquilo realmente como um trabalho. E, como nasci em família muito pobre, fui acostumada com uma vida dura e sem frescura. A gente sempre acordava cedo, era o normal. E levei esse modo de vida espartano para a vida de repórter.

Você era muito pobre? 
Era. Nunca passei fome, mas era tudo contadinho. Meu pai era alfaiate e minha mãe dona de casa. Ela tinha mania de organização. A gente podia ter só um vestido. Mas estava sempre arrumadinho. Eu herdei isso dela. Sou obsessiva com limpeza. Minhas filhas trocam de roupa umas quatro vezes por dia [risos].



Como foi a sua infância? 
Morava no subúrbio do Rio, perto de Jacarepaguá. Meus pais se separaram e fui criada por muito tempo pela minha avó, que era uma verdadeira matriarca. Tudo na família girava em torno dela. Era aquela infância de passar o dia inteiro na rua, de subir em árvore. Acho que foi isso que me tornou uma pessoa tão ativa. Tenho esse problema, faço milhões de coisas ao mesmo tempo. Preciso estar sempre em movimento.
Mas hoje você é uma celebridade. Como se sente sendo famosa? 
Não consigo me ver assim. Não adianta. A minha formação é de jornalista. Nunca tive segurança, assessor de imprensa, nada disso. Ando na rua normalmente, faço as minhas coisas. Mas é claro que jornalista de TV virou celebridade. Ainda mais eu, que apresentei por dez anos o Fantástico. Antes, já era conhecida porque fazia coisas inusitadas. Fui a primeira mulher a fazer matérias de aventura na televisão [ela escalou o Himalaia e o paredão mais alto do Grand Canyon e desceu por uma corda o bondinho do Pão do Açúcar], a voar de asa-delta, a cobrir guerra [como a guerra das Malvinas, em 1982]. Mas acho que fiquei conhecida mesmo porque subia em todos os morros e favelas sem problemas. Não pensava em nada, só ía. Mas era normal. Hoje, as pessoas olham, mas existe um respeito por eu ser jornalista. Claro, tem paparazzo. Só que sempre morei no Leblon [bairro do Rio de Janeiro onde os paparazzi dão plantão], não vou mudar de bairro por causa disso. Outro dia fui para a praia com as meninas e me fotografaram de biquininho. Eu já tinha até desistido de frequentar a praia por causa disso. Mas, com as minhas filhas, pensei: “Ah, que desperdício”. Mas aí fotografaram. Não é legal. Mas também não é um drama.


Você foi a primeira mulher negra a ser repórter da Globo. Depois, a primeira negra a apresentar o Fantástico. Enfrentou muito preconceito? 
A minha avó me contava sobre um bisavô que foi laçado nas montanhas de Minas Gerais. A minha tataravó foi beneficiada pela Lei do Ventre Livre. Então, a minha avó me ensinou assim: você tem que ser livre, não tem que procurar marido, nada disso. Tem que buscar a sua liberdade da alma. Então, a minha preocupação era em combater o preconceito racial. Primeiro dentro de mim, para que isso não me deixasse uma pessoa triste, amarga. E também para que eu não usasse isso como uma defesa. Tipo, receber uma crítica e dizer: “Ah, estão falando só porque sou negra”. Sempre foi um exercício muito grande na minha vida isso. Li muitos livros sobre o assunto. E também fiz quase 20 anos de terapia, claro.
Você chegou a ter problema em um hotel. 
Fui a primeira pessoa do Brasil a usar a Lei Afonso Arinos. Na época, racismo não era crime, era só contravenção. Mas uma vez um gerente de um hotel tentou me proibir de entrar pela porta da frente. Aí chamei a polícia. Foi quando percebi que tudo o que eu tinha tentado aprender na minha vida deu resultado. Não me fiz de vítima, não me fiz de algoz. Simplesmente soube usar a lei.


Você acha que o racismo diminuiu?
Acho que não. O que existe hoje é lei. E a lei não acaba com o racismo, que é um sentimento das pessoas. Hoje, você tem negros protagonistas de novela, como a Taís Araújo, o Lázaro Ramos. Mas mesmo hoje está tendo uma discussão enorme porque o Gilberto Braga colocou o Lázaro Ramos de galã da novela sem enfatizar que ele é negro. Aí disseram: “Mas como não vão debater a questão racial?”. Agora, gente, quando colocam um branco debatem essa questão? É a mesma coisa que eu falar: “Hoje conheci uma jornalista da Tpm, ela é branca”. Isso não acontece. Mas ainda falam: “Ah, uma negra”. O racismo está aí. Mas existe um desejo de que diminua. Então, existem as cotas, a vontade de colocar protagonistas negros. Mas só isso ser notícia já prova que existe racismo. Senti isso na pele quando apresentei o Fantástico.

O que aconteceu quando você foi colocada com tanto destaque? 
Para muita gente, era uma agressão eu estar lá. “Como uma mulher negra pode estar apresentando um programa que é símbolo de glamour, de mulheres lindas?” Eu era muito mais cobrada. Agora, na TV Globo, nunca houve racismo. E, quando falo isso, falo da família mesmo. Já recebi várias propostas para sair. Nunca saí por causa disso. Só cheguei onde cheguei porque me abriram espaço. Fui a primeira repórter do Jornal Nacional, apresentei o Fantástico quando ele estava no auge. Hoje, sou uma das principais repórteres do Globo Repórter. O doutor Roberto [Marinho, dono da Rede Globo, falecido em 
2003
] acreditava no talento. E só. Nunca fui vista como uma pessoa estranha no ninho. Isso pelo primeiro escalão. Agora, pelo segundo, às vezes tinha aquelas coisas. “Por que ela e não eu?” Para você ter uma ideia, teve gente que disse que eu estava apresentando o Fantástico por causa do movimento negro. Vê se pode.

Você foge dos padrões também na vida pessoal. Você nunca casou. E agora adotou sozinha suas filhas... 
Nunca pensei em ter uma família nos moldes. Casei uma vez, no papel, mas também foi uma coisa muito diferente. Casei em um cartório de Copacabana, ninguém ficou sabendo. Só os padrinhos e um motorista. Só contei para as pessoas quatro anos depois, quando me separei. E, no mesmo dia em que casei, registrei em cartório uma declaração dizendo que, por mais que a gente tivesse casado, a gente nunca ia morar na mesma casa. Ele não era brasileiro. Mas o homem sempre acha que a gente está fazendo isso de charme, e que depois vai mudar de ideia. Aí ele começou a trazer as coisinhas dele. Depois de três anos, viu que não ia rolar. E aí acabou.


Você nunca morou junto? 
Morei. Morei sem estar casada. E não gostei. Sou muito livre. Depois dessa experiência jurei nunca mais morar junto. Mas nunca fui de planejar as coisas.

Não planejou nem na hora em que decidiu adotar suas filhas? 
Não planejei nada. Eu tinha pedido para sair do Fantástico. Trabalhei todo fim de semana por dez anos, sem parar. Estava cansada dos quadros que fazia, de tudo. Conversei com o meu diretor e, como reconhecimento de uma vida inteira dedicada à empresa, me deram um sabático de dois anos. Eu queria fazer várias coisas. Viver sem câmera, viajar. E também fazer trabalho com crianças abandonadas. Porque eu viajava, via crianças em situações péssimas e tinha vontade de fazer alguma coisa. Passei meses na Índia fazendo trabalho voluntário na cidade mais pobre do país. Acordava às três da manhã, servia café, cuidava de crianças abandonadas e de mendigos. Fiquei maravilhada. Depois, fui sozinha trabalhar com crianças abandonadas no interior da Nigéria. Voltei para o Brasil e pensei que precisava fazer algo parecido. Fui para o Festival de Verão, em Salvador. Quando cheguei lá, encontrei pessoas de uma instituição e me ofereci para ser voluntária. Aí vi as minhas duas filhas. Olhei para uma, o mundo parou. Olhei para outra, o mundo parou. Logo, já estava querendo saber a história delas e como adotá-las. A Laura tinha 17 dias. E a Maria 9 meses.

Você não teve dúvidas? 
Não. Elas são minhas. De outra vida, ou de agora. Não é aquilo: “Ah, elas são filhas do coração”. Elas são minhas. De verdade. Fiquei um ano cuidando delas na Bahia, dos papéis. O que elas me ensinam todos os dias, você não imagina. Outro dia eu estava dando uma bronca na Laura, porque sou uma mãe bem dura, sabe? Não dou mole não. E ela me fala: “Mãe, feliz, feliz. Não precisa ficar nervosa”. O que eu faço depois de ouvir uma coisa dessas? Acabo parando de dar a bronca, né? E pensando que ela tem razão, que eu não preciso ficar nervosa, que posso levar aquilo com leveza.



Mas você sempre gostou de criança. 
Sempre amei. Tenho quatro afilhadas. Amo todas, absolutamente igual. Mas uma sempre foi muito próxima. Desde os 8 meses ela ficava comigo. E estava com uma idade em que podia viajar. Ficamos muito próximas, olha aqui [Glória mostra uma pulseira que não deixa de usar em que está escrito “Julia”]. Ela é, de certa forma, minha filha. Hoje, minhas filhas são apaixonadas por ela. E ela adora as meninas. É quase uma relação de irmãs mesmo. São grudadas. É a coisa mais linda do mundo. Por isso que te falo. Estava feliz como tia, madrinha, sempre tive criança perto de mim. Não planejava mesmo adotar as minhas filhas. Mas também sempre fui uma pessoa que nunca disse nunca. Acho que tudo pode acontecer.

O que mudou na sua vida prática com a adoção das meninas? 
Tudo. Minha vida estava perfeita, maravilhosa. Moro em um apartamento enorme, mas tinha quebrado todas as paredes e feito um quarto e sala. Todo branco, imagina. Tive que reformar o apartamento inteiro de novo. Tinha uma empregada que cuidava de todas as minhas coisas. Hoje, sou mãe sem marido. São duas meninas praticamente gêmeas, com menos de um ano de diferença. Então, uma babá ficou inviável. Tenho que ter duas. E mesmo assim eu faço muito, claro. Porque, se estou em casa, elas só querem saber de mim. E tenho que dar atenção para as duas. Se vou dar comida, coloco as duas sentadas. Dou uma colherada para a Maria, outra para a Lalá. Se tenho duas babás, tenho que ter uma pessoa para arrumar a casa. Tenho mania de limpeza, sou paranoica. Quero deixar tudo sempre arrumado, o que com duas crianças é impossível. Com tanta gente em casa, tem que ter uma cozinheira, e eu praticamente não como.

Como assim não come? 
Só como peixe, salada e macarrão missô. Em restaurante, só vou a japonês.
Por quê?
Por alguma questão ligada à saúde? Não. Fui me adaptando por causa da vida de jornalista. Desde muito cedo passei a ir para lugares distantes, aqueles confins da Amazônia. Aí fui restringindo. Passei a comer peixe, a levar uma lata de sardinha. Isso acabava com o problema da alimentação. Tem gente que tenta preservar a sua vida. Eu não, fui me adaptando ao jornalismo. Não como farinha, por exemplo. Aí como um ovo cozido, que é uma coisa que tem em qualquer lugar. Prefiro comer um ovo com sardinha a qualquer iguaria. Fui ficando assim. Se você vai para o Himalaia, uma lata de sardinha vai te garantir.

Por que você se recusa a revelar a idade?
O tempo de cada um é diferente. Isso é uma coisa que aprendi com o budismo. O que é 24 horas para você, é diferente para mim. Se o seu tempo não é igual ao meu, por que a gente vai medir o tempo cronológico das pessoas com a idade? Isso é uma bobagem! Mas não tenho nenhuma queixa. Tá tudo certo. Não quero ser mais nova. Nem mais velha. Estou do jeito que queria estar. No meu tempo. E não escondo a idade desse jeito também não. Se virou uma lenda, eu mantenho. Agora, ando com meu passaporte para cima e para baixo.
Meus amigos que começaram a trabalhar na mesma época sabem a minha idade e até brincam. Quando fui fotografada de biquíni, um deles ligou para mim e disse: “Pô, você com essa idade de biquininho, vou começar a te chantagear!”.


E o que você acha da cobrança pela eterna juventude, ainda mais na TV? 
Nunca me cobraram. As pessoas é que se cobram. Agora, entrou todo mundo na paranoia do HD. Quando comecei a trabalhar, era filme. O filme tem uma resolução muito mais forte que o HD. Então, é o seguinte: quem é do tempo do filme não teme o HD. E essas meninas mais novas ficam nessa piração: “Ai, tenho que botar filtro, não sei o quê”. Eu, por exemplo, nunca fiz plástica. Tenho orgulho de nunca ter feito plástica nem preenchimento, essas coisas. Provo para você [ela afasta os cabelos e mostra atrás da orelha] e tenho pavor de Botox. Nunca fiz. As pessoas falam que eu sou louca por causa das minhas pílulas, mas tomam injeção na testa de uma toxina que paralisa. Quer fazer, tudo bem. Cada um tem que fazer aquilo que faz se sentir melhor. Mas o que me faz bem mesmo são as minhas pílulas.

Quando você começou a tomar as pílulas? 
Aqui, ó [ela tira da bolsa uma caixinha de remédios lotada de pílulas de todas as cores e formatos]. Isso aqui não é nada. É só para a parte da tarde. Tomo centenas por dia. E cada vez que viajo trago novas, compro nas lojas naturais. Eu comecei sabe como? Com o Armando Nogueira [ex-diretor de jornalismo da Globo, morto em 2010]. Ele começou a tomar vitamina C, vitamina E. E falava para mim: “Você precisa tomar também!”. Aí comecei a viajar e comprar outras e tomar.

E o que os médicos falam disso? 
Nada. Eles não têm nada a ver com isso. Eles precisam saber é se a minha saúde está boa. E em geral está. Tenho uma nutróloga em São Paulo, uma médica maravilhosa no Rio. E eles não falam nada, porque a minha saúde está boa.

E essas pílulas são para rejuvenescer? 
Não! Esse é mais um dos mitos que as pessoas têm sobre a minha vida. As minhas pílulas são para tudo. Tomo para o sistema imunológico, para ter energia, para prevenir o envelhecimento das células do cérebro, para absolutamente tudo. É uma mania minha. E uma coisa que me faz bem. E todas são absolutamente naturais.

Você é muito vaidosa? 
Não sou! Esse é um dos outros mitos que as pessoas têm sobre mim. Olha para a minha cara. Eu não estou maquiada! E, sim, eu tenho rugas. Só que, como sou preta, tenho uma pele boa. Mas também muito sensível. Odiaria fazer plástica, por exemplo, e ficar com queloides. Sei que preto tem muita propensão a formar queloide, por isso tomo cuidado. Cuido da minha saúde.

Você é muito preocupada com a saúde? 
Sou. Não fumo. Parei de beber há uns dez anos e não uso drogas. E faço pilates e caminhadas. Se bem que relaxei um pouco desde que adotei as minhas filhas. Meu maior exercício agora é carregar criança.

Você disse que é uma mulher muito livre. Como os homens lidam com isso? 
Os homens? Ah, eles ficam apavorados, né? No início acham lindo. No primeiro mês, saem correndo [risos]. Eles não estão acostumados com mulheres livres. Mas livres de verdade, do fundo da alma. O homem brasileiro é muito, muito machista. Acabei me relacionando muito com estrangeiros. Homem acha que vai ser cuidado. E não é isso o que eu vou fazer. A maioria, no fundo, ainda acha que a gente vai agir. Mas sempre dei sorte e tive homens maravilhosos na minha vida.



Você está namorando?
Tenho uma pessoa. Mas não é para chamar de namorado. É uma relação maravilhosa. Ele convive com as minhas filhas. É meu companheiro, uma pessoa com quem eu posso contar para tudo. Mas é uma relação que... Não tem um rótulo que se aplique. A gente se ama profundamente e estou muito feliz. Mas, sinceramente, não tem um rótulo que sirva.

Além de ser famosa, você sai bastante e é uma espécie de socialite carioca, não? 
Eu tenho amigos de todos os tipos. A Yolanda Figueiredo [socialite carioca], por exemplo, é minha amiga há 30 anos. Era uma outra época. Você não ficava amigo de alguém porque aparecia na televisão. Mas porque frequentava os mesmos lugares. A Yolanda é minha amiga de Regine’s, das boates. E o Cazuza era meu amigo de praia e do Baixo Leblon. A gente ficava horas na praia, depois ia para a casa dele e ficava lá, cantando, falando. Era a época do Circo Voador no Arpoador. E você saía de uma boate para outra andando. Voce ia do Regine’s para o Hippopotamus andando. Era uma maravilha.
Conheci o Zózimo [Barroso do Amaral, colunista social], por exemplo, porque éramos flamenguistas. E ficamos amigos, pronto. As pessoas circulavam e se conheciam mais. O Rio era mais livre e mais verdadeiro.

Hoje você ainda sai à noite? 
Acho chatérrimo. Deus me livre ir para essa noite. Na época, você dançava desde a hora que chegava até as oito da manhã. Hoje, não existe mais uma boate que você vá para dançar. Não tinha esse negócio de rave, onde todo mundo tem que estar doidão. As pessoas até ficavam doidas de outras coisas, cada um no seu quadrado. Mas era outro mundo. Hoje é um tédio. Saio quando viajo. Antes de adotar as meninas, eu ia todo ano para Saint-Tropez, aí saía para dançar toda noite. Era um mês da minha vida que ia para a praia e saía para dançar. Uma coisa que eu adoro. Adoro a noite.

Você é de família pobre e ficou rica. É arrimo de família? 
Ah, sou, claro. Há muito tempo, né? Sustento um monte de gente. Mas isso para mim é uma coisa natural. A minha mãe mora a duas quadras de mim. Se eu moro no Leblon, ela vai morar onde? Ela vai morar no mesmo bairro que eu, claro. Se eu tenho, ela também tem. Ajudo minha mãe, minha irmã, meus sobrinhos, todo mundo.

Você parece muito alegre. Já passou por algum momento de depressão? 
Sabe que não? Tenho momentos de tristeza, claro. Mas nunca fiquei totalmente abatida. E aprendi a lidar com as perdas. Tive a perda da minha avó, por exemplo, uma das pessoas mais importantes da minha vida. E meu pai morreu quando eu tinha 15 anos. Fiquei muito triste. Mas tudo o que eles me ensinaram está dentro de mim. De uma forma muito forte. O que me deixa muito triste é injustiça, a maneira como as pessoas julgam as outras. Se nem eu me conheço, como os outros podem se sentir no direito de me julgar? Isso acontece o tempo todo. E eu não me conformo.



Nega Gizza

"pow essa letra é o q lig a parceiros!! pow nega gizza tem um trabbalho de mil grau memo
pow essa mina bem pra caraio fika na fé manow"

"esse som é a pura realidade que rola nas quebradas"

"Ela RAP muito bem mesmo...África contigo Nega G ;-) "

"não tem pra ninguem, Rap consciente refrão bolado faz parar pra pensar, valeu nega vc representa o rap nacional"





Gisele Gomes de Souza nasceu em Brás de Pina, subúrbio do Rio de Janeiro. Filha de empregada doméstica, aos sete anos, vendia refrigerante e cerveja com seus irmãos no Centro do Rio. Mesmo tendo parado de estudar na sétima série, por não conseguir conciliar o trabalho com os estudos, Gizza sonhava em ser jornalista. Aos 15 anos, quando escutou um programa de rap pela primeira vez, identificou-se imediatamente com o estilo. Após a perda de seu irmão, Márcio, morto pela polícia aos 27 anos, MV Bill a “adotou” como irmã, convidando para participar de sua banda como backing vocal. Entre 1999 e 2000, a rapper foi a primeira locutora de uma rádio de rap, no programa Hip Hop Brasil, da Imprensa FM. Em 2001, Gizza venceu o Prêmio Hutúz - o mais importante prêmio de rap da América Latina - na categoria de "melhor demo de rap". Seu primeiro CD conta com um time de primeira na produção: Zégonz (o DJ Zé Gonzalez, do Planet Hemp, que também trabalhou com Xis), DJ Luciano, Dudu Marote (dono do selo Muquifo Records), MV Bill, Gustavo Nogueira e Daniel Ganja Man (do coletivo Instituto, de São Paulo).


Em Na Humildade, CD lançado em 2002, Nega Gizza veio mostrar que as mulheres também podem ter espaço num mercado dominado por rappers do sexo masculino e sua voz forte pode abrir os caminhos para toda uma nova geração de novas vozes femininas. Ainda no mesmo ano lançou seu primeiro videoclipe, Prostituta. Dirigido por Kátia Lund e Líbero Saporetti e com fotografia de Ricardo de La Rosa, o clipe denuncia a realidade da prostituição no Brasil. Esteve em Cuba com Kátia Lund, registrando imagens e depoimentos para a produção do documentário "Fab, Hood e Pablo", que fala sobre rappers do Brasil, Estados Unidos e Cuba, ainda não finalizado.


Em 2003, recebeu o Prêmio Orilaxé (Grupo Cultural Afroreggae) como melhor cantora. Assim como MV Bill e o produtor Celso Athayde, Nega Gizza é uma das fundadoras da CUFA (Central Única das Favelas), uma organização não-governamental cuja forma de expressão predominante é o hip hop e que visa promover a produção cultural das favelas brasileiras, através de atividades nos campos da educação, esportes, cultura e cidadania. Nela, jovens de comunidades produzem videoclipes, documentários, shows, além de participarem de oficinas que trabalham com elementos desta cultura. Gizza também é uma das produtoras do Prêmio e do Festival Hutúz.


A seguir, trechos de uma entrevista de Nega Gizza ao blog Porradão, de Celso Athayde.

Quem é Giselle Gomes Souza? Existe diferença entre a Giselle e a Nega Gizza?

Sou nega gizza , nasci na favela 5 bocas , perdi um irmão no trafico.  Fui evangélica e lá comecei a cantar. Passei pelo charme , rádios comunitárias e hoje to aqui , apostando nesse canhão chamado cufa e organizando todos esses momentos do passado para projetar o futuro. 


O que é o rap na sua vida?

Meu encontro com o rap foi muito importante, ele me mostrou muitos caminhos, criar a cufa foi um passo a frente , foi reconstruir o rap que eu conheci, saindo dos discursos e praticando o que as letras falam. O rap foi e é importante, mas precisamos ir muito além dele se queremos realmente fazer revolução.


Qual o peso de ser considera umas das mais importantes rapper do Brasil? 

Pouco Peso, se importante no rap não é muito pra mim, claro que é importante ser respeitada até na minha rua , na minha casa enfim, em todos os lugares . Semana passada recebi em Brasilia um prêmio de Valorização da Vida, ou seja, isso que eu busco na minha vida, me completo alterando a lógica no mundo real . 


Qual a posição da mulher em um mercado quase que dominado pele sexo masculino? O que a mulher deve fazer para se afirmar? 

Não se trata de ser mulher ou homem, a questão é adotar uma postura de seriedade e compromisso. Precisamos parar de pensar no universo do rap, hip hop, como um campo de batalha entre sexos. Somos um conceito e um sentimento de transformação. O que me afirma é a minha postura diante dos meus ideais e minha luta. Nossa luta. 


Como você analisa a situação atual do rap no Brasil ? Haveria uma saída para a estagnação que domina a cena do rap nacional? 


Saída sempre há, se não tivesse a gente desistiria. Mas se a prática se desvincular do conceito, da sentido do rap, fica complicado. A música é arte, sim, é liberdade sim. Mas o rap tem em sua origem um trabalho transformador, porque deixar isso perder a força? Coloco essa proposta na roda, vamos pensar o rap de fato? Entender o que estamos fazendo, já é hora disso faz tempo.


Há quantos anos você atua no cenário social? O que mais te marcou durante esse tempo?

Nossa!!!! Acho que nasci dentro disso. Tirando os anos que não sabia falar acho que todo a minha vida foi dedicada ao social. Muitas coisas me marcaram, o começo da Cufa, o momento que ela ganhou força para crescer e ver nosso frutos abrindo seus espaços no mundo, o lançamento do documentário Falcão. É difícil destacar um momento. Nossas vitórias muitas vezes são internas, fazem parte do nosso dia-a-dia, de um jovem sem rumo que conseguimos resgatar às conquistas de novas parcerias.

Quais foram as principais dificuldades que você sentiu no começo de sua carreira dentro do Rap ?


Dificuldade para mim é estímulo. Eu queria estar fazendo o que estava fazendo. Então não se trata de dificuldade. Talvez ver que a não-condição de vida de jovens cariocas se igualam a de jovens de todo o Brasil, tenha sido uma grande dificuldade, saber que as drogas e a violência dominam a vida desses meninos. As mesmo tempo que isso abate esse é a força para a mudança.


O que é a CUFA na sua vida ?  


A cufa é meu dia a dia , é o ar que eu respiro, não só pelo prazer de trabalhar formalmente na cufa , mas sobre tudo por ver a mudança real na vida das pessoas. A cufa é a maior potencia que eu conheço.


Hoje em dia há varias letras de Rap e de Funk que relacionam mulher com sensualidade e sexualidade, você acha que esse tipo de letra desmoraliza as mulheres no meio musical?


Como eu já falei em outra resposta, o que te faz alguém, isso ou aquilo é a sua atitude e comprometimento com a sua verdade e seu ideal social ou de vida. Porque eu vou admitir que uma música desmoraliza as mulheres. Não são boas letras? Pode ser que não. Mas cada mulher deve saber o valor que ela tem e se posicionar diante disso. Não pode ficar aceitando tendências culturais, ou seja qual for, quem determina o que nós somos? Uma letra de música bem ou mal escrita? Faça sua escolha.



Recentemente você gravou com o Rapper argentino Emanero uma música chamada " Lluvia poetica" ("Chuva poética"), como foi pra você esse contato internacional?

Foi uma experiência bacana , sobre tudo pq eles são amigos e são da cufa no pais deles , a musica Serve pra isso , a cufa serve pra isso , para unir o mundo em torno das coisas boas...


O que mudou da Nega Gizza do início da carreira para os dias atuais? 

Hoje eu sou mãe de dois filhos, me sinto mais responsável e mais forte. Mais consciente do lugar que estou e da necessidade dos meus filhos Tenho mais experiência sobre as necessidades dos jovens, crianças, das questões do Brasil, do rap e da mulher. Cresci. Aprendi e continuo em frente. . 


O que significa para você fazer parte do movimento hip hop?

Significa a minha vida. Significa saber onde estou e porque estou. Conhecer a periferia, a favela, estar na periferia e ter isso dentro de mim. É entender as condições que crescemos, a forma como pensamos e nos desenvolvemos, pensar mudanças. É passear, interagir com os elementos e recriações das artes do hip hop, é criar cada dia uma forma nova de me comunicar com o movimento, compreender as necessidades e atender. Aprender e ensinar.



Você pretende encarar uma carreira política? 

Todos nós fazemos política. Ainda não pensei nisso oficialmente. Mas o que eu faço dentro da Cufa já é um trabalho político e de grande força. Nós brasileiros precisamos mudar a maneira de pensar a política no nosso país, eu sei que é complicado, temos notícias de corrupção todos os dias na capa dos jornais, na internet, rádios e em todo lugar. Mas não devemos abandonar a luta política, fazer política é organizar e administrar uma nação. Se pensarmos na nossa casa como uma nação é quase a mesma coisa. Não adianta taxar todo mundo de corrupto e cruzar os braços, sem partir para luta. Ficar parada é aceitar simplesmente e isso não é comigo.


Recentemente, o Estadão, publicou uma matéria dizendo que o rap está em crise? O que você acha disso? 

Já respondi isso anteriormente. Convidei a todos nós a discutirmos o rap e entendermos o que ele representa para nós. Qual rap que está em crise?Tem gente que curte o rap pra dançar, pra curtir, pra rimar por rimar. Tem gente que curte rap para misturar, sem problemas. Mas e nós? Que rap nós queremos fazer? Essa é a pergunta. Faça a sua proposta e persiga no seu comprometimento.



Você diria que é feminista? O que você acha do movimento feminista da década de 60 que refletiu nas gerações seguintes e como você entende o comportamento das mulheres hoje? O que mudou? O que sua geração recebeu de bom dessa época e de ruim? 

Minha geração recebeu direitos e liberdade, minha geração recebeu possibilidades e mudança no cenário, político, empresarial e social para a mulher. Minha geração recebeu também desorientação sobre o que é ser mulher e sobre se aceitar como mulher. Minha geração se confundiu com os homens e anda achando que eles são nossos opostos. Não acho isso. Acho que somos diferentes mas não opostos. Lutar por liberdade para confundir com perda de controle, pra que? Seria uma luta em vão. Não temos que lutar contra, temos que lutar a favor.

Se ser feminista é lutar ou defender o discurso de uma vivência mais igualitária nas questões relativas a gênero, sim eu sou.


Quais foram os planos que você fez para sua vida? Quais deram certo e quais não deram certo? 

Minha família deu certo Meus filhos. A Cufa deu certo. Minha carreira está dando certo. O que não deu certo? É passado. Não tenho que chorar derrotas. Tenho que partir pra frente, pra realização. 


Faça uma definição sobre o rap que você produz e fale um pouco das suas influências musicais dentro e fora do rap. 


O rádio é uma influência para mim, a força da mulher, a superação, a minha vida e a vida das pessoas. As vozes femininas são influências para mim. A música do gueto, o canto da igreja, as vozes graves e fortes. As músicas brasileiras. O samba, samba rock. e principalmente a observação, das pessoas, da intensidade ou fraqueza delas. Os homens do rap também são forte influência do meu rap. 

O rap é o que eu vivo, não é separado dela. É uma coisa só.



Pra mais informações, tem o site dela: http://www.negagizza.com.br/

Fawzia Koofi



[texto escrito por Diana Alterats]
Fawzia Koofi perdeu a conta de quantas vezes driblou a morte. A primeira foi nas primeiras horas de vida, quando sua mãe a abandonou sob o sol incandescente das montanhas de Badskhshan, no nordeste do Afeganistão. Por ser mulher, não teria valor na sociedade afegã. “As cicatrizes das queimaduras no meu rosto só desapareceram na minha adolescência”, explica a ativista, em entrevista à Tpm. Ela é a primeira mulher vice-presidente do parlamento do Afeganistão, país islâmico ultraconservador, e primeira a se candidatar às eleições presidenciais, que acontecem em 2014.
Da outra vez que viu a morte de perto, não escapou ilesa. Quando tinha apenas 3 anos, seu pai, Abdul Rahman, foi convocado pelo então presidente Hafizullah Amin (tido como um dos mais cruéis da história) a iniciar um diálogo com os rebeldes mujahidden, que se refugiavam nas montanhas próximas à casa da família. Logo na primeira aproximação, foi executado com um tiro na cabeça, e os rebeldes desceram a montanha para matar seus descendentes. Fawzia e sua família tiveram que se esconder no meio de um monte de esterco. “Ainda lembro do gosto amargo na boca”, diz, explicando que a família foi obrigada a se mudar para Faizabad, capital da província. Lá, Fawzia se tornou a primeira mulher da família a estudar. “No princípio, meus irmãos homens se opuseram”, lembra.


Já adolescente, uma promoção de seu irmão a um alto cargo na polícia fez a família se mudar para Cabul (ele seria assassinado dois anos depois). Na capital, em um ambiente mais livre, ela passou a usar maquiagem, andar sozinha nas ruas e entrou em primeiro lugar na faculdade de medicina. Mas, em 1996, o Talibã passou a controlar a cidade e as mulheres foram proibidas de estudar e até de ter acesso a serviços médicos. Fawzia foi obrigada a abandonar o curso. “Mais uma vez os acontecimentos no meu país me privaram dos meus sonhos. Sem opção, me casei.”


Uma semana depois do casamento, o marido da jovem parlamentar passou seis meses preso por uma antiga dívida de um de seus irmãos. Nesse período, Fawzia percorreu Cabul sozinha, correndo risco de ser presa pela polícia moral, tentando encontrar ajuda para livrar o marido: “Passei todo tipo de humilhação. Quando estava grávida de sete meses, o guarda da prisão começou a me apedrejar porque eu havia passado esmalte nas unhas”. Quando o marido foi posto em liberdade, o casal voltou a Faizabad e Fawzia começou a trabalhar para as Nações Unidas. O marido, debilitado pelas torturas que sofreu, acabou morrendo de tuberculose poucos anos depois.
Fawzia continuou trabalhando para a organização mundial até que, em 2005, foi anunciada a primeira eleição, em 30 anos, para o parlamento afegão. A ativista decidiu se candidatar. “O meu trabalho para as Nações Unidas me fez ver que a política estava no meu DNA. Mas, primeiro, tive de ganhar o apoio da família, porque outro irmão também queria se candidatar. Ganhei as prévias familiares e a minha cadeira no parlamento com 8 mil votos.” Atualmente, está em seu segundo mandato (ela foi a segunda mais votada de sua província), é vice-presidente do parlamento e já se lançou candidata à presidência.“Se os Estados Unidos elegeram um negro, por que o Afeganistão não pode eleger uma mulher?”, questiona.


Mesmo com o número cada vez maior de mulheres na política e em cargos importantes da sociedade, o maior foco da campanha de Fawzia continua sendo a discriminação de gênero. Por causa da cultura local, muitas jovens ainda são privadas de seus direitos. “Em alguns lugares, homens atiram ácido no rosto das meninas que vão estudar”, denuncia. “Muitos pais não mandam as garotas para a escola para protegê-las. Outros ainda acham que mulheres não precisam receber educação. Mas a sociedade afegã está mudando.”
Fawzia acompanha a mudança com apreensão. Em fevereiro deste ano, ela publicou Favored daughter, uma compilação das cartas que escreveu para as filhas, hoje as adolescentes Shuhra e Shaharzad, caso ela morresse em um atentado – em 2010, o carro de Fawzia sofreu um ataque do Talibã, matando seu motorista e um de seus guarda-costas. “Não posso ficar aterrorizada com as ameaças. Quero um mundo melhor para as minhas filhas e para o Afeganistão.”
Minhas queridas filhas,
Hoje vou tratar de assuntos políticos em Faizabad e Darwaz.
Espero regressar a casa em breve, mas tenho de vos avisar de que isso pode não acontecer. Ameaçaram matar-me nesta viagem.
Quero que saibam que tudo o que faço é para que vocês sejam livres de viver as vossas vidas e de sonhar os vossos sonhos. Se me matarem e não voltar a ver-vos, quero que se lembrem disto.
Sejam corajosas. Não tenham medo de nada na vida…
Um beijo para as duas.
Amo-vos.
A vossa mãe
Trecho do livro Às Minhas Filhas, Com Amor, 2011.



Para mais informações, é só entrar no site dela: http://www.fawziakoofi.org/

sábado, 29 de dezembro de 2012

Elke Maravilha


Elke Giorgievna Grunnupp nasceu em 1945, na Rússia, em Leningrado. Seu pai russo e sua mãe alemã eram perseguidos pelo regime comunista de Stalin, e emigraram para o Brasil em 1951. Foram morar em Itabira do Mato Dentro - MG, a cidade de Carlos Drummond de Andrade. Elke chegou em Minas falando Russo e Alemão. Após alguns anos, mudaram-se para Jaguaraçu.


Elke é professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras, incluindo o latim. Foi bancária, secretária trilíngue e bibliotecária. Foi também a mais jovem professora de francês da Aliança Francesa e de inglês na União Cultural Brasil – Estados Unidos. Fala nove idiomas: O russo, o português, o alemão, o italiano, o espanhol, o francês, o inglês, o grego e latim.









Começou a carreira de modelo e manequim aos 24 anos com Guilherme Guimarães, tendo trabalhado para grandes estilistas, considerada como inovadora nas passarelas. E foi nos desfiles que conheceu a estilista Zuzu Angel e ficaram muito amigas. 


“... aos poucos fui me impondo, mesmo como manequim. No início fazia um pouco o jogo, porque também sei ser chique: fazer um cabelo convencional, uma maquiagem leve, etc. Mas aquilo para mim era fantasiar-me. Eu não sou aquilo! E o legal é que os próprios costureiros começaram a entrar no meu barato, entender o meu estilo e proposta estética e fazer roupas especiais para eu desfilar." 









Em 1972, Elke estava no Aeroporto Santos Dumont quando viu um cartaz de de procurados políticos pela ditadura militar. No cartaz estava a foto de Stuart Angel, filho de Zuzu. Elke retirou o cartaz da parede e o rasgou. Esse simples ato de revolta lhe causou a prisão. Anexado ao processo estava o cartaz rasgado, e ela foi acusada de prejudicar a localização do rapaz foragido. Um puta cinismo dos militares, como se não soubessem que Stuart morrera torturado barbaramente nas dependências da Base Aérea do Galeão em 14 de junho de 1971. Arrastado por um carro com a boca pendurada ao cano de descarga. Este ato causou sua prisão por seis dias e a perda da cidadania brasileira. Só foi libertada por ajuda do advogado de sua amiga Zuzu. Por anos foi uma apátrida, até que requisitou a cidadania alemã, a única que tem até hoje. 





Também em 1972 foi convidada para ir à televisão, no programa do Chacrinha:
“... um dia tocou o telefone com alguém me convidando para ir no programa do Chacrinha. Eu não conhecia porque não via televisão, mas aceitei. Então perguntei a um amigo sobre como era o tal programa e ele me disse que era um programa de auditório que tinha um apresentador que tocava uma buzina o tempo todo. Achei legal, comprei uma buzina e entrei lá buzinando; o Painho se encantou comigo e eu com ele. Foi assim que começou!” 




A partir daí sua participação na tv foi constante. Foi jurada no programa do Silvio Santos, teve talk show no sbt, teve um quadro esotérico no programa do Amaury Jr, e fez um sucesso danado na minissérie Memórias de um Gigolô. Seu desempenho como a dona de um bordel fez tanto sucesso que ela foi convidada a ser madrinha da Associação das Prostitutas do Rio de Janeiro.


Entrevista de Elke no programa do Otávio Mesquita.

Em cinema, Elke participou de inúmeros filmes, desde Pixote, do Babenco, até filmes da Xuxa. Eventualmente está em cartaz com alguma peça.


 Elke, no filme Pixote, de 1982.


Entrevista excepcional para o Abujamra.



“Perguntam-me como criei este estilo, este visual que me caracteriza. Digo que sempre busquei compor este jeito, claro que não era assim como agora, pois hoje a coisa é mais abrangente, com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora. Costumo dizer que sempre fui assim, só que com o tempo estou piorando! Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e sai na rua... Levei até cuspida na cara. Mas foi bom porque entendi aquela situação como se estivessem colocando-me em teste. Talvez, se meu estilo não fosse verdadeiramente minha realidade interior, eu teria voltado atrás. Mas sabia que nunca iria recuar. Eu nunca quis agredir ninguém! O que eu quero é brincar, me mostrar, me comunicar”.

A seguir, o belo documentário de Júlia Rezende sobre Elke:



Pra mais informações, é só acessar o site oficial dela